5/27/2005

A Senhora do Destino

Há 17 anos comecei a fazer estudos de mercado. Queria juntar dinheiro para tirar a carta. Percorri todos os bairros de Lisboa, todos os prédios, bati a todas as portas e perguntei a todos os moradores que aceitaram responder ao inquérito: que margarina usa habitualmente? Acha a margarina salgada, insonsa, q.b. ou não responde? É cara, barata ou não sabe?
Por cada questionário preenchido recebia 500 escudos. Se conseguisse dez já fazia 5 contos diários.
Num desses dias, às nove da noite, bati a uma porta em Telheiras, um bairro que já venceu há muito tempo a barreira dos arredores. Fui recebida por uma senhora sorridente. Tinha uns 39 anos e muito bom aspecto. Perguntei-lhe se estava disponível para responder a umas questões sobre margarinas e uns novos sumos que tinham acabado de aparecer no mercado.Se ela me respondesse completaria os meus 5 contos diários. Isso e estar ali àquela hora e com aquela idade eram os únicos argumentos que tinha para a convencer. Ela manteve o sorriso e em tom de súplica disse-me: “…é que estou a ver a novela. Estive todo o dia a trabalhar, acabei de dar o jantar aos meus filhos e só tenho este bocadinho para estar sossegada compreende? Importava-se de voltar noutra altura?”

Pára este texto. Pára tudo. Os planos de viagens, as férias, o maravilhoso, o incrível, o bom e o mau, os interessantes, os giros e os feios, as dissertações, as narrativas, os idiotas e os inteligentes, as gargalhadas, o trabalho, os colegas, os amigos, as crianças, a montanha russa, o twister, o combóio, o avião. Pára de falar.Desliga o telefone porque isto vai começar.

É infalível. A novela é infalível. Não tem piedade. É implacável. Refiro-me apenas à novela da Globo, à “novela das oito” e a mais nenhuma.
A minha primeira paixão foi o Dr. Mundinho em Gabriela, hoje um José Wilker careca que faz de bicheiro na Senhora do Destino. Quando ia ao cabeleireiro com a minha mãe pedia sempre um penteado à Malvina (Gabriela), hoje uma velha Elizabeth Savalla que não resistiu ao tempo e ficou confinada a papéis de histérica na novela das seis. Encantava-me o romantismo da Jerusa (Gabriela), hoje uma Nívea Maria que acabou numa mãe low profile de Malu Mader em Celebridades. O Sr. Nacib (Gabriela), um Armando Bogus que deu o seu último suspiro em Tieta do Agreste. O Dr. Ezequiel, o Coronel Amâncio, a Maria Machadão e as meninas do Bataclan. Salvo raras excepções, já morreram todos. Os que ficaram precisam de ser esgravatados no reino do papel secundário… menos Gabriela, uma Sónia Braga que se internacionalizou.
A dependência da novela consiste em verificar o processo de envelhecimento dos actores de uma para a outra – “iiiii como este está, gordo que nem um txugo; iiiii o que é aconteceu àquela?; olhameste, continua na mesma!” – em sentir o alívio de ver boas representações em português (do Brasil), em ficar enredada e embaraçada num argumento em que o autor passou, plo menos, um par de anos debruçado sobre textos e diálogos de dezenas de personagens com dramas e aventuras que se cruzam entre si. E o argumento não perdoa: se ficar um mês sem poder assistir à novela das oito é mais que certo que quando a ela voltar, logo à primeira cena, entro no mesmo transe com que seguía a anterior e a antes dessa, a das oito. O fenómeno é semelhante à leitura do Código Da Vinci. Funciona como uma aspirina que tira as dores de cabeça, uma anestesia que adormece os sentidos e nos entorpece, um alhear que nos afasta convenientemente do essencial. Não voltamos a pensar no assunto, nem no Código nem na novela, mas aquele momento poderá bem ser, como me disse a Senhora de Telheiras, o único sossego que se consegue obter do dia.
A Isabel, da Senhora do Destino, abraçou uma mãe que nunca conheceu, anunciou a gravidez a um homem que a ama desesperadamente e que não a vía “há uma eternidade”. A falsa mãe e raptora de Isabel enlouqueceu e quer matar qualquer um que se lhe meta à frente. Há uma catrefada de irmãos, há sucedâneos de tragédia grega.
Os diálogos não são brilhantes como na novela anterior, (e daí...talvez sejam) em que o mau e a má da fita entravam numa desgarrada filosófica até se matarem mas o enredo, o guião é o íman mais que perfeito, sobre e para trabalhadores. Um Brasil de 1968 que vivia numa “liberdade vigiada”.Tanques na rua, soldados, armas, bandeiras, fumo, gritos e no meio disto tudo há um bebé que é raptado. Está lançada, a novela. Mordi o isco…só para falar da década de 90.
Há mais de 40 anos que a Globo anda a especializar-se em prender atenções:

A Sombra de Rebecca, A Gata de Vison, A Cabana do Pai Tomás nos anos 60.Casarão, Dancin´Days, Dona Xepa, anos 70.

Água Viva, Guerra dos Sexos,Vale Tudo em 80.

A Próxima Vítima em 90.

Estas e muitas mais estraçalharam os outros canais brasileiros: Manchete, SBT, Bandeirantes, Tupi etc.

Aqui há tempos houve uma reposição de Gabriela(1977). Técnicamente perdeu o direito ao horário nobre.Tem rua, política, cidade, campo, tipos e carácteres mas tem um ritmo a que já ninguém adere, os audios, ou antes, os sons ambiente esstão desfasados, as conversas são teatrais e lentas, os planos de corte (de passagem) interrompem as cenas à bruta. É boa mas é antiga. Emocionalmente é melhor não voltar a ver o que há tantos anos me fez tão feliz (ou estarei enganada...), a Gabriela Cravo e Canela, mas insisto em distrair-me e sossegar-me com a Senhora do Destino tal como previu o sorriso e a expressão- “um dia vais perceber porque é que te vou dar com a porta na cara”- da Senhora de Telheiras que nunca respondeu ao questionário sobre as margarinas e que voltou para o sofá.

Catarina Miranda
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