5/21/2005

Salgueiro, A Árvore Dela

-Ele...telefonou-me... de...Paris??...A...sério?!!!...Porque é que não me chamaste....porquê???!!!
-Estavas a dormir.
-E o que é que ele disse, o quê?!!!”
-Lembro-me lá. Queria tanto ouvir-lhe a voz que lhe perdi o conteúdo”.
Depois desta resposta uma das minhas tias solteiras saiu da cozinha em direcção ao campo, encostou-se ao tronco de um Salgueiro e fechou os olhos.
Foi daqueles fins-de-semana arrepiantes. Como de costume lá fui visitá-la.A casa ficava-lhe na parte terminal do Rio Vouga.
Todas as sextas sonhava com o sábado: “Baixo-Vouga aí vougueu”.
Não havia outra hipótese. Era a única forma de comer sopa de legumes coisa que esta minha tia solteira fazia como ninguém.
Os dias que passava com ela eram cansativos. Estava sempre zangada comigo. Prendia-me por ter cão, prendia-me por não ter. Eu tentava levar-lhe o cão e mandá-lo embora logo de seguida. Não resultava. Eu ainda não tinha percebido o meio-termo. Esta minha tia solteira e agora com 73 anos não se deitava porque lhe doíam os ossos, não se sentava porque lhe ardiam as costas, só descansava quando se encostava ao tronco do Salgueiro. Adorava o raio da árvore. Nunca me explicou porquê. Limitou-se a despachar-me com uma daquelas frases “A lenha do Salgueiro aquece o agricultor rico, aquece o artesão, aquece o trabalhador rural”
Porreiro. Passava a vida a mandar-me à merda com boas maneiras e eu não percebi porque raio gostava ela tanto de uma árvore. Compreendo, conseguia fechar os olhos quando a ela se encostava.
Nesse sábado, enquanto a observava de olhos fechados ao longo do Salgueiro reparei finalmente na árvore. Não há dúvida que o tronco tinha uma forma melancólica. Não há dúvida que deste tronco saíam outros em curvas sensuais.Não há dúvida de que as folhas o tornavam extrovertido e não há dúvida que a fazia, à minha tia, viajar.
Pensei que me bastava, já não queria saber do resto. Chamei-a porque a sopa já fervia. Ela não respondeu, nem voltou a abrir os olhos.Foi um fenómeno interessante porque esta minha tia morreu de pé...ainda bem que o Salgueiro não lhe permitiu a queda.
A perda causou-me desgosto mas, não há dúvida, esta não era a minha única tia.
Catarina Miranda
Free Counters
Free Hit Counters