5/04/2005

O Bife do Snob


“Todo o jornal que não aumenta a sua massa de assinantes, sejam eles quem forem, começa a definhar.

Um jornal, para ter uma longa existência, deve ser feito por um conjunto de homens de talento. Deve fazer escola. Desafortunados os jornais que se apoiem num único talento. Se o director tem ciúmes daqueles que têm talento e lhe são necessários, passa a rodear-se de medíocres que o bajulam e que transformam o jornal num mero negócio que não serve para nada. Nesse momento afundar-se-á para sempre o que poderia ter sido o melhor jornal de Paris”.

Vou também fazer desta a máxima sentença para a imprensa portuguesa (rádio e televisão incluídas). Quando leio, ouço e olho para a comunicação social sinto que a descrição de Balzac da imprensa parisiense acertou com a força de um bombardeiro na realidade em que vivo diariamente. Foi uma visão balzaquiana que se instalou à grande entre nós. Se experimentar passear-me e permanecer por um bom bocado nas redacções de uma rádio, de um jornal ou de uma televisão, não vejo o que tanta gente pensa que se vê por aí: “os medíocres a comandarem e os inteligentes dos subalternos a obedecerem a instruções absurdas para não perderem o emprego”. O que vejo é precisamente a proposição de Balzac e, para mim, tem sido esse o problema que afunda em lodo o jornalismo português. Grande parte das chefias, dos directores (nem todos) vivem no pavor que alguém lhes faça sombra com um bocadinho mais de imaginação do que aquela que eles já possuem. Aguentam a qualidade dos subalternos nos primeiros tempos, enquanto isso lhes for garantindo a audiência, mas assim que sentem as atenções, uma que seja, virarem-se, sistematicamente, para o tipo que lhes obedece, começam, muito devagar, a pensar que o chão lhes pode fugir dos pés. É daqui que surgem os jornalistas emprateleirados. Alguns deles são com certeza o topo de gama da informação. São também aqueles que, por vezes, se insurgiram contra o que parece mais óbvio, são aqueles que lhes pediram, aos chefes, uma argumentação profunda para o que os estavam a mandar fazer. Por exemplo: um director pede uma reportagem sobre a igreja portuguesa. O jornalista mostra-se disponível para o fazer e pergunta-lhe, ao director, quais os vários ângulos de abordagem, qual é a ideia que ele tem sobre o assunto, quem poderão ser as vozes da reportagem, se faz sentido falar com pessoas diferentes em vez de ir sempre aos mesmos, etc. Ele responde, quando responde. No caso do repórter apresentar diferentes ângulos para abordar a peça, querer filosofar um bocadinho sobre o assunto, começa a tornar-se incómodo, maçador, “chato” e "enrascado". Transforma-se rapidamente naquele tipo que empata mais do que “fode” ainda que a chefia saiba que a peça trazida por ele seria a mais rigorosa e explícita de toda a redacção. O chefe deixa de ter pachorra para o melhor repórter da sua rádio, do seu jornal, da sua televisão até porque, já agora, que a melhor peça jornalística acabe sempre nas mãos da própria chefia.
Resultado, os jornalistas estagiários ou principiantes ou ainda aqueles que culpam as chefias pela sua própria incompetência, são mandados de rajada para o Iraque, para um Tsunami ou para a eleição de um Papa. Os jornalistas que não levantam grandes ondas são compensados com as histerias das campanhas e dos congressos partidários onde se fazem acompanhar por um comentador do costume. Eu (e há pouca coisa mais pessoal do que isto) dou esticões no sofá quando vejo os jornalistas eficientes relatarem fluidamente a subida surpreendente de José Ribeiro e Castro à liderança do CDS sem que me façam sentir realmente que raio de surpresa é essa, por que será que ela aconteceu. Claro que é para isso que servem os analistas políticos mas também sei que, às vezes, só com uma frase, uma expressão, um gaguejar subtil e intencional, uma mão que se leva ao queixo no caso de uma entrevista, poderia trazer-nos a luz que está por trás da mudança para um líder tão diferente de Paulo Portas como o é José Ribeiro e Castro. O mesmo poderia acontecer com uma descrição mais perspicaz de uma figura como a de José Sócrates ou de Manuel Maria Carrilho. E acredito que isto seria possível sem nunca perder a neutralidade exigida a um jornalista, sem ter de recorrer a overdoses sucessivas de comentadores que vão ganhando boa parte do dinheiro que a maioria dos profissionais mal pagos da comunicação social poderiam ganhar (aqui arrisco-me a ser demasiado "sindicalista"...paciência). Dou esticões no sofá quando, por exemplo, vejo peças televisivas sobre um candidato político que começam “é entrar é entrar senhor candidato que a dona Fátima dos pastéis de Belém passou uma vida à espera de um dia como este”, adquirindo um estilo circense, ou que transformam uma peça sobre as vítimas do tsunami asiático na poesia bacoca com que sonharam durante a noite. Como se ainda faltasse aos desgraçados que ficaram sem casa e família chamarem-lhes “filhos de todos os deuses cujos olhos secaram porque as lágrimas se cansaram” como já vi acontecer.
Para não falar na moda de atribuir aos políticos de hoje a pobreza de discurso e de argumentação. Como se os políticos não soubessem que o jornalista anda de ouvidos ávidos de uma palermice estupenda que agite os espectadores, os ouvintes e os leitores que se pelam por uma boa anedota.
Voltando a Balzac e à sua Monografia sobre a Imprensa Parisiense onde se lê que os jornalistas se transformaram “em serviçais à procura de um tema que agrade à classe média e a faça sentir-se inteligente” e eis que temos algumas capas de revista e peças aterradoras disfarçarçadas de Grande Reportagem.
Não passam de alguns exemplos da mediocridade que se instalou na comunicação social portuguesa e que se pode ver ainda de outra forma. Se hoje experimentar ir comer um bife ao Snob, o bastião do jornalismo lisboeta, não deixo de sentir a simpatia e a boa vontade dos donos do estabelecimento, mas as conversas que se ouvem não são reproduzidas. Não por qualquer código de honra da profissão mas porque deixaram de ter interesse, porque não passam de tricas sobre o tipo que tirou o lugar ao outro, sobre a “gaja que subiu na horizontal”, sobre o director aflito com a falta de dinheiro que publica documentos falsos – mas bombásticos! – na esperança da boa venda. Ouve-se imenso o gajo que começa todas as frases por “eu; porque eu; e eu disse-lhe; e ele virou-se para mim…mas eu não lhe admito porque eu sou um gajo que nestas coisas…”. Ir ao Snob hoje em dia é sentir o estado medíocre a que chegou a lógica do jornalismo português. Por isso deixei de ver aquele espaço como “o cantinho familiar e confortável da conspiração editorial” e passei a sentir apenas a fumarada que embacia o ambiente, a fraca qualidade do célebre bife da vazia e o amargo de boca provocado pelo excesso de mostarda no molho onde flutua um bocado de carne. A vontade que tive, sempre que lá entrei, foi a de sair dali o mais depressa possível para ir apanhar ar e comer hortaliça à dentada.Nestas alturas penso sempre, não devo ser a única: “se eles soubessem o prazer que dá dirigir e pertencer ao «melhor jornal português», coisa que neste momento não sei o que é.
Catarina Miranda
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