5/19/2005

A Minha Mulher V

Desta vez Eufémia recebeu-me em minha casa, maquilhada. Os tons da base, do pó-de-arroz, do blush, do rímel, do bâton acentavam-lhe na perfeição não fosse o ligeiro exagero. Até as olheiras habituais tinha disfarçado com anti-cerne. Foi este tom carregado da pintura que me fez perceber a sua Ira...para mim.
Eu estava exausta e despenteada. Uma mala de cada lado derreava-me os braços. Devo-lhe ter feito um olhar de muita falta de pachorra porque ela virou-me as costas à velocidade da luz. Atirei-me para o sofá e esperei que ela regressasse o que aconteceu precisamente na altura em que toda a minha cara esboçava um sorriso. Eu tinha acabado de regressar de uma semana de férias em Goa e agora Eufémia pedia a demissão:
"Já não quero trabalhar para si, surgiram-me outras oportunidades, despeço-me."
"Falamos amanhã, a viagem foi comprida, preciso de dormir."
Ela saiu e bateu com a porta de tal maneira que tudo o que havia de mais pesado na sala estremeceu.
Estive muito pouco tempo em Goa, o suficiente para um encontro que aconteceu, logo ao primeiro dia, no Terminus Panaji enquanto aguardava pela camioneta. Olhava sempre para o chão, enquanto comprava os bilhetes mal se percebia a voz, tinha a coluna torta que lhe evidenciava o rabo, muito alta. Era uma feia com a autêntica beleza de uma Helena de Troia. Quem diria.
Entrámos juntas na camioneta e percebi logo que se tratava de uma mulher de muito jogo. Despassarada, só conseguiu sentar-se quando o único lugar vazio se encontrava ao meu lado. Comecei a ficar impaciente e resolvi a questão olhando para a janela até ao final da viagem. Sempre que o sol se escondia via o seu reflexo no vidro. Observava-me atentamente sem nunca tirar os olhos do motorista que a topou logo pelo espelho retrovisor. Tive vontade de perder todos os sentidos mas não consegui até adormecer como uma pedra apesar da cabeça não parar de bater na janela a cada buraco no asfalto e na terra batida.
Acordei já no final da viagem. Procurei a garrafa de água que nunca cheguei a comprar. Nem mais. Ela ofereceu-me a dela e disse sumidamente: não vou precisar.
Como não tinha nada a perder virei-me e respondi-lhe: a sua voz não condiz com a sua altura. É fraquinha.
Ela ficou em silêncio depois de me ter convidado para beber um café.
Insisti: um café indiano ou português?
O que é que isso interessa, aqui os portugueses já se esqueceram dos indianos e os indianos alhearam-se de Portugal. Vamos antes beber uma Coca-Cola, está calor
.
Entrámos na rua à balda. Iamos sendo atropeladas por uma mistura de riquexó com uma vespa preta e amarela. Sentámo-nos numa esplanada e aqui ela fez-me uma expressão esquiva, no limite do lascivo, com um olhar severo mas enternecido. A mesa e as cadeiras estavam assentes numa espécie de ladeira e por isso ficámos, finalmente, à mesma altura. A voz mudou-lhe no mesmo segundo: arrogante, grave, dura, bonita como ela. O empregado aproximou-se, percebeu que eramos portuguesas, riu-se e disse entre dentes: Salazar. Olhou as crianças que andavam em volta numas bicicletas de ferro e disse que tinha ultrapassado a vontade imensa de ter filhos. Franzi a testa. Não podia ser, era tão nova. Mas porquê, algum desgosto? Não, na verdade não tenho paciência para miúdos, exasperam-me. Engoli em seco e mudei de assunto. Voltamos ao silêncio e ficámos a observar os que passavam, os que liam o jornal, os que olhavam para a bezerra. Eram brancos ou indianos castanhos com um olhar raiado de amarelo. Nunca vimos a mistura. Aproveitei para comentar e normalizar a Coca-Cola: É engraçado, logo a primeira colónia europeia na Ásia e não se vêem “casamentos” mistos.
Aqui a mestiçagem,
respondeu-me sem hesitar, é espiritual.
O problema todo é que quem estava sentado mesmo atrás de nós era o motorista, um indiano bem constituído com o desmazelo de quem acabou de sair do torneio de Wimbledon. Virou-se para nós e disse: nem sempre, nem sempre...que há quem seja duro de ouvido. Desatámos a rir os três no momento em que o empregado chegou para receber o dinheiro da conta. Era baixo, pequeno mas esse tinha a beleza de um leopardo. Olhámos uma para a outra e percebemos que iam ser umas férias inesquecíveis. Ela ficou com o pequeno, era mais bonito e fazia com que ela baixasse a voz. Eu fiquei com o grande e desmazelado e elegante porque me fazia baixar a voz. Não. Nunca os trocámos. Não. Eles também não. Não, nunca houve trocas nem confusão. E é disto que o esquecimento tem medo e por isso nunca aparece.
Foi apenas uma semana, o suficiente para Eufémia pedir a demissão.
Voltou no dia seguinte e seguiu o meu conselho: oh mulher ouça fado e faça da saudade e da perda uma coisa agradável.
Eufémia aproximou-se de mim e beijámo-nos com paixão ao som do “Barco Negro”.
Patricia
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