5/09/2005

Depois dos Jornalistas, os Bloggers


“You are not allowed to put comments”/ “This post has been removed by the administrator”.
São dois dos poderes que o sistema blogger norte-americano dá a todos os autores/“proprietários” de blogs. É importante que existam para filtrar o desnecessário. O interessante, quando se viaja pela blogosfera, é verificar como é feito o uso desses poderes. É a sociedade em pleno funcionamento. É o espelho dos carácteres, das fibras e dos arcaboiços. É verdade que alguns apagam certos comentadores quando os comentários não aquecem nem arrefecem, quando são ocos e fúteis. Essa é, em minha opinião, a única justificação aceitável para os deitar no lixo. Ainda assim, jamais desejaria escrever num blog que o fizesse porque o oco e o fútil também fazem parte de nós. Normalmente os “bloggers” (as aspas referem-se a todos os que não o sabem ser) retiram comentários insultuosos ou maçadores ou, pior, pertinentes. Nunca conseguem estar à altura de um insulto ridicularizando-o; não têm arcaboiço para tirar proveito do que pode aborrecer. Não têm fibra mas têm um blog onde escrevem para serem lidos. É assim na blogosfera, é assim no jornalismo, é assim na literatura e é assim em todo o lado.
O lamentável no mundo dos blogs é o facto de poucos saberem dar uso à possibilidade de escrita sem constrangimentos editoriais. O lamentável é deitarem o que é bom no lixo e preferirem o conforto (como já referiu António Vergara em “A Blogosfera”) do amiguismo e dos comentários “bonzinhos e punheteiros” que lhes alimenta a ilusão de que o que escrevem naquele blog é bom e que lhes afasta a suspeita, o pressentimento, de que, na verdade, podem ser maus. É uma opção de vida, é uma orientação a que têm direito mas é também uma explicação para o processo de nascimento de uma fraude, de uma pessoa fraudulenta.
O António Vergara citou alguns exemplos na blogosfera portuguesa porque uma opinião deve ser ilustrada. Escuso-me a repetir alguns dos nomes que referiu mas a “reportagem” pela blogosfera obriga-me a apontar o caso, ainda que linkado, coisa que o Vergara se recusou a fazer.
O Blog de Esquerda chegou a chamar-lhe o “Leonardo da Vinci da blogosfera”. Com um olhar mais atento percebi que não passava de um mero favor de um potencial amigo no final de uma noite de copos, até porque, averiguando o grau de qualidade do blog deste “da Vinci”, seria difícil concordar com rótulo tão bombástico. Mas aí o problema seria apenas meu. João Pedro da Costa auto-intitulou-se o Lebowski da blogosfera, exibiu uma cultura musical sufocante que nunca o conseguiu enriquecer interiormente, textos enfadonhos, pouco desejáveis para a promoção ou sedução de qualquer grupo musical. João Pedro da Costa manteve sempre “limpa” a sua caixa de comentários e conseguiu que alguém (amigo ou não) o convencesse que o seu blog é publicável em livro, um fenómeno comum na blogosfera e em todo o lado. Não o critico. É de aproveitar. Eu não o faria. São oportunidades que nos podem queimar para sempre, a não ser tenhamos a certeza da verdadeira qualidade dos textos e tal só pode ser aferido por comentadores que não tenham qualquer interesse em agradar, ou não, ao autor. Mas esses, pude testemunhá-lo, foram removidos do blog e garanto-vos que não diziam só mal.
O que aconteceu, tal como dizia Balzac em relação aos jornalistas, é que fizeram sombra a João Pedro da Costa dentro do seu próprio blog e é por isto que resolvi dedicar tanto espaço a este “blogger”: para poder linká-lo ! Como o exemplo do director que com pavor da concorrência acaba por tornar o seu blog num espaço medíocre povoado de bajuladores. O blog merece referência porque, apesar de uma lógica bloggista deformada, se fizermos uma leitura atenta, constatamos que ainda resta uma centelha. Para não ficar apenas pelo mau exemplo vou sugerir uma blogger – Horas Perdidas – que já demonstrou o seu arcaboiço e sistema anti-spam pessoal. Não há comentário que ela não drible. No ténis, chama-se a isto ir à rede e arrumar o adversário que se torna assim num potencial amigo. Claro que a blogosfera e tudo o resto tem de ter os bons, os medíocres e os maus mas imagino o prazer que dá pertencer à elite da qualidade: aquela que nem precisa de usar os poderes que o sistema blogger norte americano lhe confere porque já os tem dentro de si.

Catarina Miranda
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