5/18/2005

As malhas da globalização

Acredito no capitalismo por não acreditar muito no altruísmo do ser humano. É a perspectiva de um novo automóvel, um melhor futuro para a família, o prestígio da promoção ao Conselho de Administração que faz com que as coisas sejam feitas da melhor maneira. Já se sabe que, quando tudo é de todos, ninguém se responsabiliza por nada.
No início do ano, que começou com a eliminação das disposições aduaneiras que restringiam as quantidades de têxteis que a União Europeia podia importar, um ministro chinês afirmou estar a trabalhar para garantir que as exportações de têxteis chineses para a Europa se fizessem de «forma ordenada». Não estava preocupado em garantir que as peças de roupa viessem engomadas, dobradinhas e bem acondicionadas no contentor, ou que não houvesse engarrafamentos de gruas no porto de Xangai. A retórica pretendia agradar às autoridades europeias, ou ao público a quem as autoridades europeias pretendiam agradar, e referia-se na verdade a conter o crescimento das exportações.
Agora o comissário europeu do Comércio afirma estar em curso uma «investigação» acerca das exportações chinesas e dos seus efeitos na indústria europeia. Parece qu
e está a procurar o vilão que viola as regras do livre comércio, mas pouco mais haverá a fazer que recolher os valores junto das alfândegas. Quase não valerá a pena consultar os industriais dos têxteis, porque já se adivinha que a indústria dos têxteis está a vender menos, e já se sabe que todos se queixam, na aplicação inversa do sentimento que os levou a montar o negócio para poder comprar o iate. No contexto de concorrência que a Europa consagra internamente nos seus próprios tratados, os vilões não deviam ser os empresários chineses que produzem mais barato.
Podiam sê-lo se recorrêssemos ao conhecido argumento do dumping social: os salários e as condições de trabalho na China fazem concorrência desleal. Mas se começamos a puxar por esse fio acabamos por chegar ao facto de que a China (ainda) é um país pobre, e que nos países pobres as pessoas estão dispostas a trabalhar por menos e em piores condições. Há uns meses li que havia um exército de trinta milhões de camponeses desejosos de autorização governamental para irem trabalhar para as cidades e que portanto os salários ir-se-iam manter baixos por muito tempo.
Acredito também que o capitalismo gera riqueza suficiente para atender aos mais necessitados que, temporária, ou nalguns casos, permanentemente, devem beneficiar da ajuda de todos. Isto é mais ou menos pacífico, a discussão, evidentemente, centra-se na definição de mais necessitados, e na medida em que devem ser ajudados. O caso dos têxteis pode ser discutido de forma análoga, separando, para efeitos de análise, consumidores e produtores e, dentro destes, a classe dos trabalhadores por conta de outrem. Claro que não existem consumidores puros, de um lado, e trabalhadores, do outro: o operário da Vila das Aves ficará satisfeito se passar a poder comprar camisolas de manga curta made in China a metade do preço, mas a satisfação não será grande se ao mesmo tempo for parar ao desemprego.
As vantagens para os consumidores europeus podem até ser superiores às «perturbações» na produção europeia (como lhes chama a Comissão Europeia), mas de um lado há pequenos ganhos para muitos, enquanto do outro são grandes desgraças para um pequeno conjunto de trabalhadores europeus: se o subsídio de desemprego os protege (durante algum tempo), ninguém os abriga da frustração. No entanto, retirando o adjectivo «europeu», incluímos a felicidade dos trabalhadores chineses que conseguem novos empregos, neste mundo complexo da globalização.
Paulo Bento
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