4/14/2005

A Vida Dura: Auto-Retrato de Manuela Ferreira Leite


"Temos de lhes ensinar o que é a vida dura"




Sempre gostei de algarismos. Sinto uma atracção incoercível por taxas de juro, índices de inflação, dividendos, rendimentos, quocientes financeiros. Tudo isso desperta em mim uma forte sensualidade. O prazer sublime das estatísticas e dos cálculos de probabilidades, a elegância das demonstrações matemáticas e das curvas em sino, a capacidade de emocionar-se com a subida e a descida das acções da Bolsa. As obras da natureza não me suscitam tanto interesse como as criações humanas. Bem sei que as fontes de prazer variam consoante o indivíduo e que há pessoas que apreciam mais a estética do pescoço de uma girafa ou de uma fileira de elefantes. Compreenda-se: esta inclinação para os números é superior às minhas forças.
Detesto a desordem, não tolero a incerteza. O caos provoca-me aversão e o improviso produz-me arrepios. Qualquer indício de desleixo sufoca-me. A visão de gavetas onde se misturam, confusamente, miscelâneas de objectos, trapos, fitas, bocados de coisas, provoca-me calafrios. Cultivo as regras e a disciplina, não o acaso, o imprevisto, o golpe de sorte. Pessoalmente, considero que tudo existe para ser arrumado, catalogado, contado. É da organização que eu gosto. Em cada mínimo detalhe preciso de ter uma sensação de eficiência e de arrumação. A minha casa é um mundo de ordem e de asseio, nada está fora do lugar. Tudo está segundo as regras, como deve ser.
Há em mim uma nostalgia da ordem originária. Talvez por isso sinta uma necessidade inadiável de perfeição e de simetria. Os meus livros estão alinhados nas estantes pelas cores das lombadas, assim como as minhas roupas, dobradas e arrumadas por cor. Detesto quadros tortos nas paredes. O volume do rádio tem de aparecer sempre em números pares. No frigorífico, os produtos estão arrumados de acordo com a roda dos alimentos. Peso escrupulosamente aquilo que como e sei com precisão os seus ingredientes. Dos peixes a pescada é o mais rico em potássio enquanto o bacalhau o suplanta em azoto. Quando trinco uma maçã, digamos com 150 gramas de peso, sei que ela contém 80 calorias, 22 gramas de hidratos de carbono, 16 gramas de açúcares (fructose, glucose e sacarose) e cinco gramas de fibras, em particular a pectina, responsável pela diminuição do colesterol. Contém ainda diversas vitaminas (C, B1, B2 e B6), potássio, fósforo e cálcio. Além disso, a maçã é dos poucos frutos que podemos consumir sem deixar de realizar outras actividades (não é por acaso que ainda hoje a maçã é o fruto mais consumido no horário laboral do Ministério das Finanças). Sou daquelas pessoas para quem o ritual é tudo. Por exemplo, comer um ovo estrelado exige método e destreza: primeiro a clara, com cuidado para não fazer derramar a gema, que deverá depois ser levada à boca de uma só vez.
A minha ocupação preferida é planear, somar factos no bloco de notas: fusos horários, regras de jogos de cartas, crises financeiras históricas, conferências do Fundo Monetário Internacional, datas dos choques petrolíferos e das crises energéticas, os reis de Portugal e os rios da Europa, os papas e suas datas de eleição (incluindo os antipapas e os papas duvidosos), programas para ensinar de maneira sistemática a geometria algébrica e os clássicos greco-latinos, a métrica de Ancient Mariner, de Coleridge. Os meus poemas favoritos são “Pontualidade” e “Normas e Preceitos”, do reverendo Charles Lutwidge Dodgson. A poesia portuguesa repugna-me, em particular a obra de Fernando Pessoa, o poeta que afirmou coisas tão deploráveis como “amanhã pensarei em depois de amanhã” ou “ah, a frescura na face de não cumprir um dever!”
Mentalmente faço listas de tudo, dígitos das contas bancárias, extractos de conta, a composição de uma nota de 500 euros, tabelas matemáticas, equações, fórmulas, teoremas, axiomas, acrósticos, anagramas, monogramas, postulados, definições, proposições, paradoxos. Tenho o cérebro povoado dum número estonteante de nomes, de caras e de endereços. Folheio-o como outros folheiam a lista telefónica. A minha cabeça é um arquivo imenso de que vou voltando as páginas uma a uma. Não se julgue, porém, que sobrecarrego o pensamento com pequenos pormenores que me afastam das matérias de maior importância. Na minha mente disciplinada tanto incluo os preços da mercearia e da papelaria da esquina como a evolução do Dow Jones e dos valores tecnológicos, o preço de um novo aspirador como os números do fluxo do comércio internacional, a despesa mensal no salão de cabeleireiro como as entradas e saídas dos investimentos directos estrangeiros, o preço de uma máquina de lavar como os índices do consumo de energia por habitante ou a estrutura da dívida externa dos países em vias de desenvolvimento.
Sou uma mulher de acção, não de palavras. Conversar é uma perda de tempo. Durante o governo de Durão Barroso contabilizei as conversas que tive com outros ministros, com secretários de Estado, directores-gerais, assessores, etc. Durante esses cerca de dois anos mantive 6 mil conversas. Ora, considerando que essas 6 mil conversas tiveram a duração média de uma hora o tempo legal perdido com elas andou perto dos 3 anos. O tempo é uma mercadoria rara, é um capital preciosíssimo. O tempo é como um livro de cheques: deve ser utilizado com prudência e frugalidade.
O nosso país está cheio de gente preguiçosa. Gente que só pensa em restaurantes de luxo, no barulho da noite, em festas de gala, nas conversas de salão. Gente que identifica altos níveis de consumo com o sucesso social e com a felicidade pessoal e que escolhe o consumo desenfreado e o hedonismo descabelado como objectivos de vida. A nossa sociedade precisa de ser reformada de alto a baixo. Precisa de aprender o gosto da poupança, da disciplina, da organização. Portugal precisa de trabalhar sem descanso. Portugal precisa de saber o que é a vida dura.
João Pedro George
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