4/16/2005

Um homem com quem apetece conversar



Há 15 anos estive no Brasil. Foi uma viagem de família que, segundo a memória fraca da minha mãe, não correu como deve ser. Eu andava mal disposta, o meu irmão perdeu a bagagem. Percorremos vários aeroportos onde encontrámos alguns actores da novela das oito.
Dessa viagem ficou-me o nome de Oscar Niemeyer. Na fotografia aí de cima, Oscar devia ter mais ou menos a idade que tenho hoje... quer dizer... vendo bem, tem bastante mais (a mania do tiro no pé). Tem uma expressão viva e convicta, um olhar prometedor, bem longe do tipo contentinho convencido de si próprio mas que, na verdade, não passa de um pateta. Ouvi falar dele quando cheguei a Brasília numa camioneta com ar condicionado e com um guia que numa ordem fez com que todos nos equipássemos com litros de água:
“Atenção, minha gentche, aqui o sol não brinca. Em nenhum outro lado do país faz mais calor do que em Brasília. Aqui não dá meismo páguentá. Quem se atrevê a ir lá prá fora sem água pódji morrê disidratádô ou começá tendo miragem”.
Quando saímos foi um alívio. Pela primeira vez em todo o Brasil eu voltei a sentir o mesmo calor seco de Lisboa. O grau de humidade era zero e a temperatura chegava quase aos 50 graus. A isto estava habituada, ao calor húmido é que ainda não. Nem por uma vez levei a garrafa de água à boca. O guia desmultiplicou-se em explicações e historietas sobre a “cidade perfeita” e o seu arquitecto de apelido alemão e com ascendência portuguesa, árabe e até talvez africana.
Em síntese, para quem não a conhece, é uma cidade resolvida, correcta e impecável. Nos blocos habitacionais ninguém precisa de sair para ir às compras ou levar as crianças à escola, está tudo encastrado no condomínio. Estradas largas e suaves com pequenos desvios para clubes desportivos e de convívio. A cidade é recta, a arquitectura é curva e elogiada mundialmente. É limpa. O guia informou-nos que a “cidade perfeita” era onde se registava a maior taxa de suicídios do país. Achámos natural mas ao longo destes anos apenas hoje, durante uma dor de dentes e uma breve passagem pela entrevista a Nyemeyer na revista Sábado, voltei a olhar atentamente para a sua expressão, agora com 97 anos. Nunca confirmei se a história dos suicídios era verdadeira, imagino que seja mas sempre desejei que fosse o próprio Oscar a explicar-me como é que encarava a consequência da sua cidade. Sempre o admirei porque foi ele quem me fez sentir pela primeira vez a importância e a gravidade da arquitectura na vida de um povo, ainda que seja o mesmo homem que diz que “a arquitectura não ajuda em nada porque esteve sempre voltada para as classes dirigentes” e que sentir e ser cordial é mais importante do que todo o seu trabalho. Acredita que o comunismo ainda pode melhorar a vida, vive e adora o caos do Rio de Janeiro mas se voltasse a construir Brasília não mudaria uma vírgula. Recusa a legenda do revolucionário e assume sem hesitar a do revoltado, sabe que se ama ou se odeia a “cidade perfeita” mas sabe também que no mundo não há outra igual. Oscar Niemeyer tem hoje a expressão de um dos poucos homens com quem eu mais gostaria de conversar.

Catarina Miranda
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