4/06/2005

A Procura



Porque fomos caçadores, procuramos e fazemos da procura a essência de tudo e somos reduzidos por ela e por nada mais da mesma forma. Fazemos dela um fim, um objectivo total, tão completo em si próprio que, por desejar prolongá-la indefinidamente, tememos por natureza, o encontro, evitamos a captura como definição. O gato, também ele caçador, procede exactamente assim, porque é a perseguição que o apaixona.
Fazemos a procura com amor, portanto, cativamo-la como quem aconchega alguém nos braços. O amor é uma ideia difícil porque contém um esboço da noção de encontro. Nada a explica melhor que a confluência dos rios que, no mesmo momento e no mesmo lugar, misturam as suas águas, dando-se mutuamente. Mas, dar-se não é encontrar e por isso, o rio que foi rios, engrossado agora, prossegue a sua busca.
Assim, é importante a diferença entre homens e rios e toda a espécie de encontros. Mas falemos primeiro do amor: de todos os pontos do universo nos chega um apelo constante, respiramos fundo e enchemos com uma sua infinita parte todas as nossas células. Nenhuma será demais e estaremos então, amando. Pelo contrário, experimentemos espalharmo-nos nas mais pequenas fracções em redor de nós próprios. Estaremos ainda assim fazendo o mesmo e nenhum recanto do universo será alheio à nossa dádiva.
Associemos num único instante as duas acções e estaremos então vivendo em plenitude o verdadeiro momento do amor. Sabendo prolongá-lo, nada se quebrará nunca dentro de nós, porque se abriram as portas do absoluto, para dentro e para fora.

E no entanto, são milhares as faces do amor.

Se vires uma casa fechada no meio de um campo, não forces a sua porta, porque entrarás depois numa ruína. Ao contrário, as marcas que lhe deixaste, deixou-as ela em ti e a casa terá então aberto as portas à tua própria existência.
Onde houver um espelho, não te verás, mas o que destruíste. Terás então, a expressão de um gato triste, que é a expressão mais triste do mundo.

Amar é também vigiar o sono dos amigos e dos inimigos. O despertar de uns, será a tua oportunidade de retribuir... o de outros, a de cativar.

A casa de que te falei, pode bem ser eu própria. Encara-a como um templo e explora-a lentamente, com o seu consentimento e com a tua ternura, porque ela é límpida e frágil como um copo de água. Se a agredires, nunca mais a terás. Um copo partido não será mais um copo e seja o que for, estará sempre vazio.
Percorre-a com suavidade e ela ir-se-á abrindo para ti, permitindo a tua procura permissiva, como as flores o são com as abelhas.
Vai então dar-te, certo que o farás inteiro, com convicção, mas também com humildade.

Convicção tão forte que nenhum poder possa abalar. Humildade tão profunda que te torne sensível ao mais leve argumento.


Ana Ataíde
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