4/01/2005

Monólogo da Vizinha

Quem é que anda a deitar água cá para baixo?! Que pouca vergonha é esta?! Com quem é que esta gente anda a brincar?! Gente reles e ordinária que vem para cá. Coisa mais ordinária não há ao cimo da Terra. Só vêm para cá morar é porcos e badalhocos. Só disto é que vem para cá. Porcos e ordinários. Só gente ordinária, que não tem outro nome. Têm mesmo a cara daquilo que são! Já a semana passada foi a mesma coisa. Isto é uma falta de respeito. Estão a deitar-me a casa abaixo com água. Tenho a cozinha alagada. É um cheiro aqui que não se pode. EU QUERO SABER QUEM É QUE ANDA A DEITAR ÁGUA.
É a cegonha lá de cima, essa lambisgóia, essa imigrante. Trazia a netinha para roubar e partir tudo. Eu já te chamo a polícia. O que é que tu julgas que andas aqui a fazer?! Sua porcalhona... vai desmanchar a tua casa. Eu a limpar e ela a sujar, eu a limpar e ela a sujar. Era o que faltava! Mandarem aqui na casa dos outros. Era o que tu querias... entrar cá dentro. Ela quanto mais manda abaixo mais está a pagar. Quando se fizer as contas de tudo aquilo que partiram e estragaram... estão enganados... estão estão. Com quem é que ela anda a brincar?! Eu mando cá vir um homem para arranjar isto e depois mando-lhe a conta. Toda a vida tem sido aqui uma pouca vergonha... toda a vida. Mas ela está enganada. Vou lá bater à porta... O que é que foi??? Estás a mandar calar quem??? Daqui a um bocado mandas-me calar mas é na polícia. Eu mando-te a polícia a casa. A polícia está a par de tudo... a polícia já está a par de tudo. Começa a fazer muitas e eu chamo-te aqui a polícia. Só vêm para aqui é bandidos e assassinos. ASSASSINOS!!!... Deixa estar que daqui a um bocado... Deixa estar, deixa estar... O meu filho já aí vem... ele está a tratar de uns assuntos para tratar do teu. De hoje já não passa. Logo à noite já estás morta... tu e a tua filha... Eu não te digo mais nada. A tua sorte é estar a chover. Se não estivesse a chover já te dizia o que é que eu fazia. Mas logo não é tarde. Se eu pudesse sair de casa... eu agarrava a gaja... ou ela ou quem lhe ensina... És atrevida, não és?! Só cá vem para fazer mal. Tudo que vem cá é só para fazer mal. Mas afinal de contas que monstro mora aí, Santíssimo Sacramento??? Esta gente é do pior... Vai fazer pouco de Deus! Vai brincar com Deus, não comigo! Brinca com Deus, não comigo! Quando quiseres gozar vai gozar com os teus... não comigo. Olha que eu não sou de paródias! Eu nunca vi coisa mais reles, mais ordinária que aqui. Tu estás enganada! Olha que estás enganada! Eu já falei com a polícia. Eu estou a evitar pôr aqui a polícia à porta. Eu quero lá saber da filha dela ou da neta dela. Tem lá uma princesa... a princesa Margarida... Pego num pau e escavaco-a toda... Sabes para onde é que estás a deitar a água??! Eu a apanhá-la e ela a deitá-la cá para baixo! Tenho a casa toda alagada. Olha que isto. Não tem respeito por ninguém. Toda a vida tem sido uma pouca vergonha. Toda a vida, toda a vida... Daqui a um bocado já te digo o que é que eu vou fazer...

João Pedro George
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