4/19/2005

A Minha Mulher III

O Sábado trouxe-me finalmente a Eufémia. A casa tinha chegado àquele ponto de desarrumação em que só nos apetece fugir. Não havia um prato ou um talher lavado, o sofá tinha substituído a cama pouco convidativa, o chão tinha areia e pó e eu andava a comer sopas knorr há uma semana. Não me apetecia fazer absolutamente nada a não ser esperar pela Eufémia e fazer-me de vítima.
Quando meteu a chave à porta e entrou vi-lhe claramente uma expressão de quem tem vontade de desaparecer ou de me espancar, de quem se arrependeu por trazer na mão um ramo de orquídeas para me oferecer e me provocar. Ela sabe perfeitamente que as flores me cheiram a velório. Fez um esforço sobre-humano, ignorou o desalinho doméstico e entrou num monólogo enfadonho e interminável. “Se a D. Patrícia pudesse imaginar a inteligência das flores”. Tentou convencer-me de que o facto de elas estarem paradas e em silêncio esconde a mais pura revolta contra o destino. Porque as flores conseguem libertar-se do escuro das suas raízes em direcção à luz do sol, porque são ambiciosas e teimam salvar-se, por cima, à fatalidade de baixo. Conseguiu provocar-me uma gargalhada, fazer com que me levantasse do sofá e começasse a varrer o chão da sala. Perguntei-lhe onde é que tinha ido buscar aquela ideia e ela tirou do saco um livro pequenino chamado “A Inteligência das Flores” de um tal de Maurice Maeterlinck. Pediu-me autorização para ler algumas passagens enquanto eu arrumava a casa. “Força! Mas acho pouco provável que mude de ideias em relação às flores”. Eufémia encolheu os ombros e leu-me numa voz desafinada:
“Nunca me esquecerei do admirável exemplo de heroicidade de um enorme loureiro centenário. Lia-se facilmente no seu tronco, torturado e convulsivo, todo o drama da sua vida tenaz e difícil. Desde as suas primeiras horas, enviara as cegas raízes à longa e penosa busca da água incerta e da terra vegetal. Mas isso era apenas o cuidado hereditário de uma espécie que conhece a aridez do Sul. A haste juvenil tinha de resolver um problema muito mais grave e mais inesperado: a árvore rompia de um plano vertical de maneira que a sua fronte, em vez de se erguer para o céu, se inclinava para o abismo. Fôra pois necessário, apesar do peso crescente dos ramos, emendar o primeiro impulso, dobrar o tronco, pertinazmente, ao nível da rocha e – como um nadador que deita a cabeça para trás,-manter assim, por um esforço de vontade, por uma contracção incessante, bem direita para o firmamento a pesada corôa de folhas”.
Quando acabou a leitura, Eufémia ergueu os olhos e ficou à espera que me desdobrasse em elogios e em curiosidades do tipo onde é que descobriu esse Maeterlinck. Continuei a varrer, não olhei para ela e disse-lhe: “Se não fosse a Eufémia com os seus livros de “auto-ajuda” esta casa ficava um nojo. Pronto acabei de varrer”. Eufémia largou o livro, arrancou-me a vassoura , agarrou-me o maxilar direito com uma mão e mais uma vez tentou beijar-me. Só que agora não deixei, prendi-lhe os ombros, encostei-a à parede e beijei-a eu. Ficámos nisto quase dez minutos até que ela sugeriu que fossemos mudar os lençóis da cama. Beijei-a de novo e disse-lhe que ficava para o próximo Sábado.
Patrícia H.
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