4/14/2005

Mestre de Judo

Estive seis meses ausente dos tapetes por causa de uma lesão muscular. Treinei nestes últimos 15 dias mas não acredito que tenham sido o suficiente para recuperar por completo as minhas capacidades.
Sou cinturão branco, categoria ligeiro e fui derrotada, há meio ano, pela Daniela, com a mesma cor mas com a categoria leve. Havia gente a assistir quando me levou ao tapete. Os aplausos foram arrasadores, de tal maneira que continuo sem acreditar que um treino de 15 dias seja o suficiente para voltar a mim.
Agora, quando pratico judo quase não me aproximo do que me parece sempre ser uma adversária.
Kano é o meu mestre e ainda não parou de gritar comigo:
-...mas você 'tá com medo do corpo a corpo? É alguma aversão?
-...não, antes pelo contrário... só tenho medo de me magoar... ou de magoar alguém...
- ó rapariga, use a força e junte-lhe a alma ou 'tá com medo das competições?
- Se bem se lembra, mestre Kano, nunca tive medo da competição... desisti quase sempre em vésperas de torneios.
- Isso não é medo, é pavor, agora percebo as suas lesões! Você anda a passear o kimono, é igual às outras. Você sabe lá o que é um samurai!
- MESTRE!!! (gritei-lhe), eu não quero ser um samurai.
- É natural, a sua ambição está no ground zero... sempre esteve.
- Não se preocupe, passo bem sem a ganância.
- Quem é que falou em ganância? É o apetite, a sede, a vontade, a paixão... está tudo no ground zero.
- é natural mestre, ando entediada.
Olhou-me com tal raiva que a cara lhe estremeceu. Ia rematar com qualquer coisa mas conteve-se e fez menção de me virar costas. O silêncio dele foi ensurdecedor ao ponto de me acordar de uma dormência de seis meses. Agarrei-lhe no ponto certo e completo do braço e levei-o ao tapete. Ficou ali estendido durante um minuto. Durante esse tempo fixei-lhe o olhar. Ele riu-se desajeitadamente e mandou-me um "vou dar-lhe o benefício da dúvida".

Patrícia H.
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