4/04/2005

Melanzane




Tinha eu para aí doze anos, a manhã toda a jogar a bola, uma fome de morrer, a subir as escadas de três em três degraus, mortinho por almoçar. A minha mãe e a minha avó com o almoço pronto, uma gritaria: “Vai lavar as mãos!, “já lavei”, “mentiroso”, “pronto, já está”.
A mesa estava repleta de umas rodelas amarelas, que deduzi ser pescada frita. Sempre gostei muito de peixe. A minha maior façanha foi aos onze anos: num almoço de família ingeri vinte carapaus grelhados. Até parece que estou a ver o meu tio, todo orgulhoso, bigode empinado, a bater-me nas costas e a dizer: “Assim é que é, rapaz, assim vais crescer”. Depois comi um melão. Foi um dia inesquecível. O meu tio contava feitos grandiosos de antepassados na sua luta com o bicho peixe. Havia um com que me identificava particulamente, um pescador lendário nas lotas de Peniche que fritava imediatamente os peixes que pescava. Para onde quer que fosse levava sempre consigo um pequeno fogão a gás.
Mas naquele dia, não era peixe o que estava reservado para mim. Era beringela frita. “Que coisa é esta, mãe?”. Parece que a minha avó se tinha lembrado de uma receita antiga da avó dela. Decidi declarar guerra à beringela e não comer. Levei um estalo. Clube do peixe, zero, beringela, um.
Entretanto cresci, adquiri estudos e fui viver para Itália, uma terra sofisticada. Na altura eu não sabia, mas nesse país a beringela é muito apreciada. Os nativos falavam-me das suas propriedades gustativas, mas eu recusava-me a ceder. Agora podia vingar-me. A pouco e pouco fui-me reconciliando com a beringela, a melanzane. Primeiro foram os meus cozinheiros. Várias indivíduos desamparados, que abriguei lá em casa por amor cristão, já sabiam que para terem tecto transformavam-se nos meus mordomos pessoais. Primeiro foi o Rui. Melanzane recheada era a sua especialidade. Depois o Luís. Melanzane grilliate. Depois foi o Atef. Tagine de melanzane com especiarias do mercado de Alexandria. E de seguida preparava-me o narguilé. Mas a revelação do carácter divino da beringela só chegou com a visão da Anna, judia-romana de olhos verdes, a cozinhar farfalle com melanzane.
Agora mudei para Madrid. A Anna casou com um grego com pêlos no nariz. “Vai via, vai in Spagna e vai presto”. A comida cola-se ao céu da boca. Já comecei a comer atum em lata. Só que eu já não sou deste clube. Eu quero a minha melanzane. Alguém viu por aí os meus mordomos?

Tiago Fernandes
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