4/20/2005

Marxismos Imaginários II




Dei um salto, como se tivesse apanhado uma chicotada. Atendi o telefone. Era o Pedro. Ela deixou-se cair na cadeira e acendeu um cigarro. É preciso ter muita lata. Chegar aqui com aquela atitude «e o resto do mundo que se dane». Aquela petulância de quem conhece a vida, muito senhora do seu nariz. Deu-me uma ponta de febre. Apeteceu-me trincá-la. Aquele corpo cheio de carne, a pele morena. As feições rústicas, simples. Nada de bâton nos lábios nem ganchos nos cabelos, nada nas pestanas, nada nas pálpebras. As sobrancelhas espessas, negras como um corvo. Os contornos da perna, as mãos quase aristocráticas. O gesto de pôr os cabelos para trás da orelha. Com as duas mãos corrigiu o penteado na nuca. Conheço o truque: não era tanto arrumar os cabelos soltos mas sim esticar os dois seios, pô-los em evidência. Depois puxou o vestido um pouco acima dos tornozelos. Apetece-me fazer-te um minete. Comer-te! Foder-te! Tinha o caralho a rebentar das calças. O Pedro pediu-me para apontar a morada da casa da miúda dele, onde o iria buscar no dia seguinte. Sim, amanhã íamos a Marrocos. Não me apeteceu dizer-lhe que já não ia com ele. Apertei um colhão por dentro do bolso das calças, alojei melhor o caralho, encostei o auscultador entre a cabeça e o ombro e escrevi o endereço. Desliguei o telefone.
Peço desculpa aos leitores pela indiscrição, pelas palavras indecentes, mas jurei a mim mesmo não omitir nada, dizer tudo, contar esta história tal como a vivi. Que me perdoem também as mulheres protagonistas destas histórias. A vossa identidade ficará só entre nós. Ou seja, entre mim e elas. Não sou escritor. Por isso receio não conseguir pôr qualquer ordem na minha narrativa. Com estas páginas pretendo tão-somente reviver, de certo modo, a minha juventude. Isto que aqui relato não é mais do que a realidade. E isto é só o princípio.
«Como se chama?», perguntei-lhe. «Diana», respondeu. Esmagou o cigarro no cinzeiro. Fiz-lhe nova pergunta: «toca algum instrumento?» «Não», disse ela, pousando um dedo no lábio inferior. «É que tem mãos de pianista...» Agarrou-se a mim. Beijou-me. Foi como saltar no vácuo, do alto de uma falésia. Reconheci aquele momento como algo de que me iria lembrar no futuro. O gosto a cinza. O hálito a resina. O bramido de uma leoa sedenta de amor. Pus-lhe a mão debaixo das saias. Tinha a rata orvalhada. Ouvi a porta do gabinete abrir-se. Era um colega meu, um professor velhíssimo, um velho libidinoso. Os académicos acabam todos assim. Arrastava-se por ali desde o Tratado de Tordesilhas. Entrou. Olhou-nos. «Boa tarde». Sentou-se na secretária. Felizmente não reconheceu a Diana como aluna do curso. Despedi-me, que estávamos de saída, que ficasse à vontade.
Directamente para casa dela. Fazer a mala e o mais que nos apetecesse. Desembarcámos do táxi. Vielas, becos, ruas com andaimes e escoramentos, prédios entaipados e desabitados. O átrio da entrada era iluminado por uma pequena lâmpada nua, suspensa no tecto. As paredes da entrada eram verdes como o tecido de uma mesa de bilhar. Entrámos. Senti humidade, frescura de adega. Instantaneamente, fotografei o interior da casa com os olhos. A sala, com as paredes inteiramente tapadas por livros, alguns quadros engordurados pelo tempo e pelo fumo dos cigarros, duas janelas, uma grande mesa no meio. No quarto, o amassado da roupa nas costas das cadeiras, roupa espalhada por todo o lado, parecia que tinha explodido uma granada no guarda-vestidos, cuecas sujas no chão, o cheiro a deboche, a desmazelo. Um quadro digno de um pintor qualquer. De volta à sala, disse: «despe-me!» Era uma ordem e, simultaneamente, uma súplica. Disse-o de uma maneira que soou sedutora, embora essa não fosse provavelmente a intenção dela. Furioso, com o ímpeto de Napoleão para arrebatar a Europa, comi-a com beijos. Ela mordia-me os lábios com os seus. Trinquei-lhe o lóbulo da orelha, franjado de penugem de fruto, os braços febris, convulsivos. Os meus dedos cavavam na carne, desenhavam-lhe sulcos na pele das costas. Meti-lhe uma mão entre as pernas e senti a pressão do ventre, através das saias. Despi-a. Beijei-lhe as duas coroas negras dos seios. Afastei-lhe bem as coxas e, com as duas mãos, abri-lhe a carne sumarenta e comecei a dar à língua, a fazer-lhe um minete no sofá. Pus-lhe depois um dedo na cona e outro no cu. Os olhos dançavam-lhe debaixo das pálpebras semi-fechadas. Tinha o coração entre as pernas. Esticou as pernas até à extremidade do sofá. O espasmo retesou-a, pô-la trémula. Levei-a então para o quarto e caímos os dois em cima da cama. «Gosto de foder contigo. Condiz com a minha personalidade. Ficas bem debaixo de mim». Ela disse que estava a ter descargas eléctricas, que tinha as orelhas a ferver. Baixou-me as calças e masturbou-me durante uns segundos. Depois enfiou-o na boca, enquanto o cabelo, disperso, se espalhava sobre as minhas virilhas. Lambeu-me os testículos (o meu nome é caralho e sou um soldado da I Guerra Mundial. Isto é o meu caralho que está a escrever). A partir desse momento o meu pénis ganhou vida própria, desobedeceu-me. Tinha o cérebro como carvão a arder. Chapinhei na mata espessa, no lago entre as pernas. Falei-lhe, ao ouvido, do amor e do prazer nos termos mais indecentes, utilizando palavras que queimam. Bateu-me no peito, mordeu o lençol, mexeu-se numa grande desordem, a contorcer-se, a debater-se. Mordi-lhe o pescoço, debaixo dos cabelos. «Vem-te cabrão vens-te ou não te vens», disse aquilo sem vírgulas, sem pontuação, com os músculos tensos, os cabelos agitando-se como chamas. Por Vénus! Isto sim que é mulher. «Mais depressa!» A cama, desconjuntada, estalava com os meus safanões furiosos. Como um vigoroso Hércules senti toda a minha força de homem agitar-se furiosamente por cima dela, as minhas veias estavam inchadas. O sobrado cedia e ameaçava estalar. O jorro quente, por fim, mais branco que as neves do Kilimandjaro. Naquele momento seria capaz de entrar no fogo sem me queimar, de entrar na água sem me molhar. Ela parecia esgotada, rubra de calor, com os cabelos em desalinho. A minha perna esquerda distendeu-se, doeu-me, senti uma cãibra. As mamas ainda arfavam quando rebentou numa gargalhada que se espraiou pelo quarto como uma onda. Ria doidamente. «Estrondoso, parece que fiquei sem cérebro, descerebrada!». Desprendeu-se de mim, levantou-se, “fazes-me peso, sinto-me esmagada”, e foi à casa-de-banho. Pensei: detesto ouvir gajas a mijar. Mas logo depois comecei a ouvir o barulho da água a cair na banheira. Ia tomar banho. Estava mesmo a apetecer-me ficar sozinho, deitado na cama, a olhar para o tecto. No 1º andar havia grande alvoroço, risadas, choque de vozes, ruído de portas. Vesti as cuecas e sentei-me na cama com as costas apoiadas numa almofada. Servi-me da garrafa de whisky que estava na mesa de cabeceira. Atingiu-me o estômago com uma explosão de calor. Sem pensar, e enquanto esperava por ela, peguei no livro mais próximo, no chão mesmo ao lado da cama, e abri ao calhas. «Eu mijava contra uns caniços nas traseiras da cubata (mijar depois de foder é a primeira condição para prevenir doenças venéreas) debaixo de um imenso rebanho de desconhecidas estrelas, incrustadas em veludo negro como diamantes pontiagudos, minúsculos. Sentia ainda as mãos, no pescoço, no peito, um aroma passivo, um aroma obediente de mulher. (...) Os internados da 8ª enfermaria, à falta de mulher, penetravam às escondidas com o pénis as nádegas uns dos outros, ou masturbavam-se no refeitório, de boca aberta, manipulando com os pulsos desajeitados os tufos magros da braguilha.» Benza-os Deus! António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno. Li sem prazer e sem aborrecimento. Fechei o livro, deixando um dedo entre duas folhas para marcar aquela página. Fixei-me nas costas da cadeira onde ela deixara as meias e as cuecas, nos vestidos pendurados no criado mudo. E o Pedro? Que se lixe. Ele que fique em Lisboa a engordar, a beber e a perder a memória. Depois, para o compensar, trago-lhe de Marrocos uma bolota, o haxixe que começa a borbulhar assim que aproximamos a chama do isqueiro e se cola aos dedos e ao tabaco como plasticina, como chocolate derretido. Mas lembrei-me subitamente de a Diana me ter dito que ontem tinha ido para a cama com o Pedro. Aquilo picou-me como uma vespa. O sangue fluiu-me no rosto. Senti um vago ciúme. Senti ganas de a mandar para o diabo, de cortar o pescoço do Pedro. Olhei para o meu pénis, estava flácido, pendente. Apeteceu-me enrolar um charro, fumar, ficar com o cérebro dormente, sentir o formigueiro. Depois de vários minutos a levantar diversas peças de roupa, a atirá-las para o ar, encontrei finalmente as minhas calças. Trazia sempre pequenas pedras de haxixe soltas no bolso, como se fossem rebuçados. Desprendi uma folha do livro de mortalhas, espalhei metade de um cigarro na concha da mão, fiz o filtro a partir de uma pequena tira de cartão que enrolei com a ponta dos dedos, um filtro pequeno (quanto mais pequeno o filtro maior a moca; quanto maior o percurso que o fumo percorre, mais resina fica no filtro ou no papel, menor a pedrada). Coloquei depois a pedra de haxixe em cima da lâmpada acesa da mesa de cabeceira. Deixei-a a aquecer durante 3 minutos, o cheiro denso da droga começou a invadir o quarto. Antes de enrolar, pus um risco de coca por cima do tabaco já misturado com o haxixe. Fumei, retendo o fumo nos pulmões o máximo de tempo que conseguia. Expeli o fumo, tossi violentamente, senti o farfalhar dos pulmões. Ao fim de cinco minutos já tinha os olhos intoxicados, dilatados, brilhantes. A boca começou a secar. Engolia a saliva com esforço. As raízes dos cabelos crepitavam. Os raciocínios, em salto de cavalo, ecoavam no cérebro. O coração começou a bater com uma rapidez espantosa. Sentia-me vivo como uma flecha, tinha ideias para encher várias Bibliotecas de Alexandria. Os meus pensamentos planavam muito alto, como grandes aves de rapina. Na minha cabeça havia legiões romanas a chegar e a partir. Aos meus ouvidos chegavam os passos dos soldados a marchar, naquele turbilhão de joelhos mais rápidos que os sentimentos. As palavras voam-me da língua. Estão de passagem mas não têm a culpa. Divagava, melancólico. Ia deixar-me adormecer quando a ouvi falar. Ao telefone. «Era para lhe dizer que está tudo bem. Com quem estou...? Claro, claro que sim... Como é que está o tempo aí? Aqui está calor. Tenho feito tudo certinho. Sim, não me esqueço, para a semana, quinta-feira, às 16h.» Desligou. Prostrou-se à porta do quarto. De cuecas, com uma toalha na cabeça como um marajá. Calçava meias pretas, compridas, subidas acima dos joelhos, como uma interna no colégio. Cheirava a banho quente, a água escorria-lhe ainda pelo rosto, como metal. Reparei que tinha um ombro mais alto do que o outro. Com a ponta do dedo indicador molhada de saliva fiz uma gravata e passei-lhe o charro.

António Vergara
Free Counters
Free Hit Counters