4/06/2005

Interrupção Voluntária da Gravidez

Tenho um filho com oito anos. Nunca consegui habituar-me à ideia deste Vítor pequeno, sempre atrás de mim, atrás de mim, atrás de mim... nunca ao meu lado, muito menos à minha frente, porque passo a vida a evitar-lhe a existência.
Este filho solicita-me obssessivamente. Quer contar-me como foi o seu dia, o que aprendeu na escola, quer ver televisão ao meu colo, pede-me abraços, pede-me beijos, quer ser do benfica se eu fôr do sporting e pede-me para jogarmos matraquilhos. Empurro-o sempre mas discretamente, digo-lhe que não tenho tempo, que preciso de trabalhar. Durante o dia não o vejo, esqueço-me dele mas ao final da tarde sou obrigada a ir buscá-lo, levo-o para casa e comporto-me de maneira a que ele perceba que tem de se arranjar sozinho. Fala pelos cotovelos. Raras vezes lhe respondo. Hoje contou-me que se baldou a uma aula para poder estar com um amigo. A isto respondi-lhe: habitua-te à ideia de que esse amigo talvez nunca falte a nada para poder estar contigo. Ficou triste e limitou-se a prometer-me que nunca mais se baldava. Voltei a não reagir. O Vítor insiste em gostar de mim. Eu insisto em não lhe passar cartão. A avó dele, a minha mãe, atormenta-me com a frase "Dá Deus Nozes a Quem Não Tem Dentes", coitadinho do meu neto!
O filho que tenho, com oito anos de vida, lembrou-se agora que podíamos dar a volta ao mundo. Tentou seduzir-me com o trepidar do comboio, com o ondear do barco, com peripécias de aeroporto. Tentou convencer-me a abraçar um monge, a aprender crioulo, a dançar o samba, o tango e a acabar na Disneylandia. Disse-lhe que não. Não quero, não me apetece... não sei brincar.

Catarina Miranda
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