4/06/2005

Fuga ao Tsunami com a Devida Antecedência II

Meia hora mais tarde a vegetação já escondeu o ancoradouro definitivamente, deixando-o fora do espírito. Um filme faria melhor justiça a esta aproximação sob a última luz do dia, o Sol a pôr-se por detrás do vulto negro da mesquita, o barco chegando-se à aldeia de pescadores encostada a um dos ilhéus forrado de vegetação, erguendo-se acima das insalubres águas sobre estacas de madeira pouco mais altas que um homem – como farão com as marés vivas?
Vê-se grande número de restaurantes per capita, mas não deve ser oferta excessiva na época alta, quando outros turistas at(r)acam nos ancoradouros privados, vindos aos magotes de Phuket. Enquanto não chegam, pode-se caminhar em paz pelo entardecer das ruas, por corredores de chão tabuado nem sempre completo, aqui apodrecido, além caído, obrigando a pisar bem e ao de leve. Os fiéis acedem ao chamamento, convergindo para o templo através de uma luz que é líquida como se o mar fosse atmosfera, os vultos brancos dos capuzes a parecerem aparições.
As paredes das casas não são transparentes, mas as portas e as janelas estão abertas como em Malaca, deixando ver o desalinho, a roupa suja no chão, a televisão ligada ao abandono, mulheres que não foram à oração do crepúsculo preparando o jantar. Uma rapariga rechonchuda toma banho vestida, despejando o jarro, a gravidade a levar-lhe a água suja para a ria, e o viajante não sabe se pode olhar. O mijo que o miúdo traquina verte com alegria cai também nesta grande cloaca que passa debaixo do povoado ao sabor das marés.
O jantar é peixe, não se esperaria outra coisa na aldeia de pescadores, mas ao passar na cozinha o viajante encontra a embalagem onde veio congelado, não engana o rótulo em inglês para exportação, talvez os pescadores prefiram passar o dia a treinar para a prova de remo que na faina que lhes dá nome. Vai lá outra vez, deves ter visto mal - e o viajante aproxima-se novamente do caixote de lixo e abre bem os olhos e chega-lhe a mão apalpando o cartão e corre a indignar-se junto dos holandeses que dormem no quarto ao lado, mas eles permanecem indiferentes e precisam de ser abanados e dão vontade de perguntar para que é que vieram aos trópicos.
Paulo B.
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