4/04/2005

Fuga ao Tsunami com a Devida Antecedência I

Depois das dezenas, centenas de rochedos forrados de vegetação, o asfalto da estrada torna-se liso de repente, mais intenso o branco das marcações que separa os veículos que vêm dos que vão, e as placas que anunciam Phan Gna Bay, que apontam para bungalows e resorts e a relva aparada no cruzamento, confirmam que a área é turística, ainda que não de massas. Com o início da cidade surgem edifícios baixos, incaracterísticos como sempre neste sul, desfilando à passagem do autocarro, cinzentos, brancos, amarelos, e letreiros berrantes, intermináveis ao longo de quilómetros que o incauto poderia tomar por metrópole não visse detrás da estrada-avenida apenas uma segunda rua e logo a montanha sobrecarregada de verde, debaixo do céu cinzento que ameaça mar e chuva.
Hotéis, pensões, casas, quartos, excursões, mais uma vez parece haver excessiva oferta para tão pouco forasteiro, a não ser que toda a gente esteja a caminho da festa da Lua Cheia no Golfo da Tailândia, do outro lado. A cada mês reúnem-se lá dez mil backpackers para dançar reggae, house e techno, dez mil backpackers só neste país a levarem vida de verdadeiro viajante, visitando cidades onde nunca estiveste nem pensas ir, permanecendo semanas em lugares onde apenas passaste algumas horas. Hão-de ficar no Oriente e tu em breve voltas para o escritório, por isso aproveita ao máximo este mar de Andaman, ao menos estás protegido dos tufões do Mar da China, nesta amenidade de clima só é preciso fato de banho, uma camisola de manga curta e a máquina fotográfica para o passeio de barco de dois dias, está tudo programado e a única rebeldia possível é esquecer o protector solar e o repelente de insectos.
O transporte até à baía é em carrinha nova, ar condicionado, estofos de couro, o condutor já fez o percurso milhares de vezes e está claramente farto de estrangeiros, não quer conversar. À beira do braço de ria a viagem parece compôr-se, comprido como um rio, largo como um lago, reflectindo a ausência de cor das nuvens, as montanhas de verde sobrecarregadas em anfiteatro ao fundo, a norte, dando a ouvir com mais força a ausência, enquanto um ancoradouro diminuto aguarda a atracagem dos long tail boats. O barqueiro apresenta-se com o grande chapéu de palha como manda a Ásia, e aí vão o viajante e duas passageiras carregadas de comida em direcção ao sul, cada metro a valer o seu comprimento em ouro porque afasta da civilização, porque conduz a um canto secundário da Tailândia. Pressente-se a ilha de Sumatra lá ao fundo, muito longe, do outro lado deste Mediterrâneo oriental, enquanto nas margens da ria onde ninguém vive se estende a floresta de mangue, pequenas árvores cujas raízes submarinas assentam no lodo salgado e na maré baixa se erguem agressivas acima das águas insalubres.
Paulo B.
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