4/15/2005

Ensaio Sobre a Liberdade

Entrei em casa da Maria. Estava frio e as paredes estavam sujas. Despe a camisa. Disse. Levantei a cabeça num movimento brusco. Apetece-me foder! E foi tudo, um pensamento obsceno e uma exclamação. Apetece-me, caí para atrás e encostei a nuca à parede. Segurava na mão esquerda um saco com duas garrafas, uma de whisky outra de água. Começou a falar, desconexa. Não quero saber como consegues continuar nessa vida... continuar a beber sem fazer nada... sem trabalhar... nessa tua passividade obtusa... Como é possível estar neste estado?, pensei, já não me aguento em pé, sinto-me mal-disposto, acho que vou vomitar.
Fui até à casa de banho. Abandonei o saco, bati com a cabeça na parede, não me importei, continuei, entrei, sentei-me junto à sanita gelada. Pouco me importava se estava mal ou bem. Tanto me fazia. Vomitei mas não me libertei do cordão umbilical do vómito espesso que saía da boca. Senti uma mão a passar pelo cabelo. Com delicadeza. Era bom sentir uma mão tranquila, sem perguntar nada, sem falar, apenas a tocar-me. Disse que a amava. Parecia tão sincero, senti-me sincero.
Acordei. A sinceridade perdeu-se às três da tarde, quando dava uma olhadela no quarto, onde ela dormia, semi-nua, em cima dos lençóis. Não quero nada daquilo, pensei. Saí de casa, entrei num café. Enquanto segurava a chávena de café no ar olhei confuso o movimento da rua e as mulheres que passavam. Bebi em pequenos goles até o açúcar escorrer, castanho, pelo lábio inferior. Poisei a chávena, acendi um cigarro amarrotado e húmido. Recostei-me nas costas da cadeira. Lembrei-me do encontro que tinha com um colega da Faculdade, o meu orientador de Doutoramento. Às seis e meia da tarde aqui no meu gabinete. Temos de projectar o trabalho de investigação da próxima semana. Disse-me uma semana antes.
Apanhei um táxi. Para a Av. de Berna, por favor. Tenho pressa. Um pouco mais depressa. Não posso ir mais depressa, o trânsito está um inferno. Saio aqui. Está bom assim. Obrigado. A porta bateu com força. Boa-tarde professor. Trouxe o que lhe pedi? O quê? A recensão do artigo sobre o Tocqueville? Esqueci-me! Sente-se aí. Sentei-me. O que é que você julga que anda aqui a fazer? Tem de trabalhar, caso contrário não acaba isto. Você está na corda bamba. Eu sei, quase sorri.
No passeio, em direcção ao Campo Pequeno, senti um braço tocar-me o ombro. Fixei os olhos verdes e grandes de uma amiga. A Susana. Estás bom, rapaz? O que é que tens feito? Vem comigo, disse, foge comigo, vamos de comboio, até ao norte. Apanhamos agora o comboio. Estaremos em meia hora em pleno campo. O que é que tens? Nada, quero ir-me embora até ao norte. Estás doido? Adeus.
Afastei-me. Um whisky, por favor. E gelo, também. Não parei de beber até me ter lembrado, duas horas passadas, de telefonar ao Luís. Vem daí beber uns copos comigo. Estou aqui na Av. 5 de Outubro, num café. Não fiquei à espera dele. Não me apeteceu. Ele que nunca mais me falasse, que me esquecesse. É tão bom esquecermo-nos destas coisas, pensei. Apanhei o comboio. Nunca mais pensei na Maria.

António Vergara
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