4/04/2005

Catatonia



“Nem festas nem conversas, deixem-me estar sentada numa cadeira”. Foi assim que encontrei, logo pela manhã, a velhota algarvia: sentada numa cadeira. Em frente tinha a ria, as garças, as dunas e a praia. Mas e daí? Os olhos nem se mexiam, cheguei a pensar que era cega, não via o chão, não via em frente, não via ao alto. Ainda me passou pela cabeça “mmmmm, aqui não se passa nada... é bem capaz de ter enjoado o raio da ria, o raio das garças e o raio da praia”. Já era bastante tarde quando regressei e a velhota estava precisamente na mesma posição em que eu a tinha deixado. Comecei a ficar incomodada, cheguei ao pé dela, passei-lhe a mão pelos olhos e chamei-a: “minha senhora!”. Era uma estátua. Já nem eu conseguia apreciar a ria, as garças e a praia. “Deve ter sido alguma partida que a pôs K.O. mas deixa estar que a D. Maria Antonieta já me esclarece”. Era a vizinha da velhota há coisa de nove anos. Professora de liceu reformada, tinha-se retirado para aquele fim do mundo para sossegar, o costume. “Ouça lá, o que é que aconteceu à velhota aqui de baixo que nem sequer enxota as moscas do braço?”. Desdramatizou com um aceno de cabeça e disse-me que era uma perda de vontade. “Vontade de quê?”.
"Vontade! Perdeu-a, eu é que a sento lá fora para ver se acorda, sei lá esteve casada 35 anos, o marido morreu-lhe há dez mas ela parou por ali, não percebo, o meu morreu há menos e eu reagi, há outras que morrem de desgosto ou andam para aí a chorar mas ela apardalou-se. Até enerva. Noutro dia houve aí um funeral de um miúdo que tinha sido atropelado, isto estava cheio de gente, tudo de preto nem se conseguia ver o chão, só sapatos, barulho e choros. Pensa que lhe deu abalo? Está para ali ensimesmada nem que houvesse um bombardeamento. Sim senhora, parece que o marido a fez feliz... e ela a ele, que até perdeu o paladar, se lhe soubesse a peixe dizia que era carne só para a mulher ficar contente. Ai de alguém da família que se levantasse da mesa antes de ela acabar de fumar o cigarro. Iam passear, chegavam às tantas, nem se lembravam dos filhos. Eles ainda a visitam mas ela parece que nem respira. Julga que tem vontade de morrer? Nada, antes fosse. A última vez que falou foi para pedir a cadeira. É deixá-la.”
Decidi não voltar a olhar para a velhota mas não me controlei. Aproximei-me, peguei-lhe na mão e levantei-lhe o braço. Fiquei ali à vontade uma meia hora e ela nunca o baixou. Não tinha vontade de deixar cair o braço.

Catarina Miranda
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