4/05/2005

A Blogosfera


Um dos grandes méritos dos blogues – julgo que ainda ninguém chamou a atenção para o fenómeno – é pôr a nu a infinita variedade da estupidez humana. Há a escrita, cuja qualidade tornaria muito difícil a aprovação de um aluno da escola primária. Há a ignorância enciclopédica, disfarçada com transcrições de livros e de artigos de revistas (de preferência estrangeiras). Há a quinquilharia da erudição, os que colam (com aspas ou sem aspas) excertos dos livros que andam a ler. Há a tagarelice inesgotável, sob a forma de comentários onde abundam as vulgaridades correntes sobre discos, livros, filmes, etc. Há os bajuladores, que se empoleiram através do elogio mas, quando contrariados, e sentindo-se incapazes de absorver a crítica, vociferam como carroceiros (a menor objecção enche-os de cólera, mostrando assim de que matéria são feitos). Há os rodriguinhos das amizades (sintoma mais conhecido por amiguismo), há os que têm alma de lacaio, há os que pensam sem pensamentos, há a gravidade saloia típica dos círculos intelectuais. Perguntam-me: por que é que os blogues haveriam de ser diferentes? Também os blogues são um retrato do nosso país, também eles legarão à posteridade os costumes e os hábitos da sociedade do nosso tempo: a ausência de pensamento rijo (tal como ele existe, por exemplo, na imprensa britânica), a incapacidade de distinguir amizade e opinião intelectual... a lista é infinita e monótona.
Alguns casos concretos. Um blogue como “A Praia” é bem representativo dos tiques e manias atrás enunciados. Mal escrito, com ideias em segunda, terceiríssima mão (vejam-se os textos pastelosos sobre Woody Allen), cópias de um lirismo de instrução primária (por exemplo, alguns poemas publicados no início do blogue), citações avulso de revistas (destaque para «The Economist») e de letras de música brasileira (uma dica maldosa para o João Pedro, que tanto apreciava “A Praia”: para quando um Monólogo do Brasileiro?). Continuar a ler «A Praia» faz-me lembrar uns amigos meus que há anos, no liceu, tentaram fazer andar um motor gripado. “A Praia”, no fundo, é isso: um motor gripado.
Outro exemplo é o blogue «Fora do Mundo»: não há quem denuncie, por exemplo, a gravidade saloia de assinalar um ano de blogue afirmando: “continua e continuará a ser um blogue sem agenda”. Estas coisas fazem-me cócegas. Porque, enfim, a ser isso verdade é coisa que se anuncie? Um indivíduo ou tem agenda ou não tem, ponto final. Agora vir berrá-lo aos quatro ventos? Ó faz favor.
A Bomba Inteligente é outro blogue sobreavaliado. A escrita que ali se pratica está ao nível da minha filha de 8 anos. A Carla Quevedo serve-se do blogue para estabelecer contactos (está no seu pleno direito civil), criar uma rede de cortesãos e alimentar uma nuvem de adoradores. Na Bomba não respira uma única ideia inteligente. Há dias, ou semanas, num texto de erudição bacoca, a Bomba discutia a questão do gosto. O que para ali foi, David Hume para aqui, Kant para acolá. A certa altura defende: “os gostos não nos definem”. É este um bom exemplo da ignorância enciclopédica que acima fiz menção. A Bomba cita abundantemente em inglês e confunde tudo, apenas com o objectivo de lançar poeira de erudição nos olhos dos mais ingénuos. Os gostos não nos definem? Não será antes o caso de os nossos gostos nos revelarem e nos traírem muito mais do que os nossos juízos (por exemplo os juízos políticos)? Ou muito me engano ou o nosso amor-próprio sofre muito mais quando os nossos gostos são condenados do que quando se trata das nossas opiniões. Por que é que acha que as pessoas, em geral, sofrem mais, muito mais, quando lhes dizem que têm mau gosto? Para não fazer mais figuras tristes, aconselho à Bomba um curso intensivo de filosofia...
Por fim, o Esplanar. Blogue que inicialmente parecia apostar na diversidade e até em algum antagonismo de opiniões, tem vindo a torna-se ultimamente num armazém de textos já publicados noutros sítios ou ainda numa loja onde se publicitam as actividades extra-blogue. Não queria terminar sem referir alguns blogues que me cativam a leitura. Aquele que de imediato me vem à cabeça é o «Barnabé», não todo o Barnabé, apenas um dos seus elementos: o Rui Tavares. Em boa verdade, um só texto do Rui Tavares vale por quase toda a blogosfera. Estão bem escritos, têm estilo, têm ironia, são inteligentes, uma pessoa aprende ali qualquer coisa, puxa pela cabeça. O Rodrigo Moita de Deus e o Luciano Amaral de «O Acidental» são também casos de blogueres espirituosos e mordentes cuja leitura, sempre que posso, vou actualizando. Em «a causa foi modificada» ou nos “galarzas” já tenho encontrado textos inspirados, despretensiosos, numa linguagem pitoresca que põe num chinelo muitos escrevedores com a mania da literatura. A qualidade e a escrita podem ser questionáveis mas, pelo menos, entretêm. Haverá com certeza outros blogues de leitura obrigatória (lembro-me de um blogue curiosíssimo chamado “Médico Explica Medicina a Intelectuais”, infelizmente encerrado). O mesmo, porém, se pode dizer do «Em Busca do Tempo Perdido» ou do «Quarteto de Alexandria» e eu ainda não os li. E então?

António Vergara
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