4/04/2005

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A primeira vez que te vi, não te vi. Olhei, mas não te vi. Sei agora, olhando para trás, que tu me viste bem.
Durante muitos dias ignorei a tua presença, ainda que ela fosse constante. Jantares, saídas, passeios... tu estavas sempre lá. A observar-me, a aguardar-me. Esperavas simplesmente que os meus olhos que olham se fechassem e os meus outros olhos, os da alma, os que vêem, te sentissem.
Quando nos cruzámos, pensei: "és feio, balofo, nada interessante. A tua presença quase me incomoda". O tempo passou e a tua presença ganhou força. Eu cresci, sempre contigo a meu lado, numa de amizade.
Na noite de passagem de ano consegui finalmente ver. Tu tiveste de ir, por imposições profissionais, para longe. Num ambiente festivo, no meio dos nossos amigos, tu não estavas. Muito álcool, bifanas, gargalhadas, frango assado, pão de Mafra e o meu pensamento estava somente em ti.
Foi nessa altura que a minha existência se abriu para ti, rendendo-se às evidências: tu és especial, para mim... Olhei para ti na minha mente e aí sim, vi-te. E tudo mudou.
No dia seguinte, vieste ter comigo, solícito como sempre, achando que eu ainda não te via. Para ti, sei-o, foi um dia como outro qualquer na minha companhia. Para mim, foi um dia de descobertas e exploração.
A noite veio e decidimos então deitar-nos juntos na cama para assistir a um filme, como fizéramos outras tantas vezes. Mas esta noite ia ser diferente, porque já podia ver. Perante o teu espanto, entreguei-me a ti. Continuava cega. Soube depois que foste tu que te entregaste a mim.
Hoje, acredito que ambos tivemos uma vivência necessária ao longo de um estranho caminho para, nesta altura das nossas vidas, nos encontrarmos e nos completarmos.

Mas não foi fácil. Deus é um brincalhão. Sabendo quão mundana sou, amante das coisas belas, de homens belos e vigorosos, vaidosa, cheia de mim, colocou a minha alma gémea num corpo que Ele sabia que não iria olhar duas vezes. Mas eu olhei e vi. Desta vez, não me ganhasTe.


Ana Ataíde
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