4/25/2005

LUIZ PACHECO, "O MEU 25 DE ABRIL"


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Este texto foi escrito originalmente a 30 de Maio de 1974 e fazia parte de um diário que Luiz Pacheco começou a escrever em 1971 e que em breve será publicado pela Dom Quixote (com o título Diário Remendado e fixação de texto e posfácio do João Pedro George). Por decisão do próprio Luiz Pacheco, este “O Meu 25 de Abril” acabou por ser excluído da edição final. É assim no contexto de uma escrita diarística, ao correr dos dias e sem grande apuro estilístico, que este documento deve ser lido. Luiz Pacheco vivia então em Massamá e estava em casa a rever as provas do Pacheco versus Cesariny (editorial Estampa, 22 de Maio de 1974). “De repente chateei-me, não tinha telefonia, não tinha televisão, não tinha nada, chateei-me de rever provas e digo «vou ali beber uma cerveja». Enfiei o sobretudo por cima do pijama, um sobretudo que me tinha sido dado pelo Alfredo Machado, o terceiro marido da Natália Correia. Quando venho de beber a cerveja o barbeiro diz-me «ó senhor Pacheco, olhe que há revolução em Lisboa»”.

O MEU 25 DE ABRIL

Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cerveja e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: “então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar...” Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves. Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!). Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem ocorrido às lojas, em tentativas de açambarcamento, e manda fechar o comércio. Aconselha a população a manter-se nas suas casas e as forças militares e militarizadas a recolherem aos quartéis e não oferecerem resistência à tropa. A coisa é grave. Parece que não há comboios e para lá de Sete Rios não se passa. Tenho algum dinheiro e resolvo logo ir ver (foi o melhor que fiz: ver para crer). Desço acelerado e vou a casa do Fernando Paços, perguntar se ele sabe alguma coisa. Se sabe não diz. Mas confirma. Acompanho-o à farmácia de Queluz Ocidental e depois (ele aconselha-me que não vá a Lisboa, pois não conseguirei passar – mas eu conheço outro sítio para entrar, ou sair, da minha terra e caminho acelerado. Muitos carros, em fuga discreta?) para cá. Em Queluz, já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo... oiço que um tal comprou mais de cem pães. Rica açorda (ou negócio) deve ter feito com eles. Cafés fechados. Há comboios. Meto-me num para a Amadora, depois sigo a pé. No Bairro do Bosque (sempre o intenso movimento de carros a saírem), ainda consigo meter um copo. Não há jornais. Rostos, com as janelas fechadas, assomem entre cortinas. Tudo me dá a ideia de receio (mas em Queluz vi alguns magalas a planar, o que me deixou intrigado). Venho a pé até às portas de Benfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão. Meto-me num autocarro da Carris, de Benfica para o Chile e fico-me um tanto a rir do Paços, que em Lisboa e a andar para o centro já eu vou. No Chile, só uma taberna aberta: bebo mais um copo, estou nas lonas. Animação. Um tipo ao meu lado compra 8 maços de Português Suave, também está a açambarcar ou a fumar aquilo diariamente habilita-se a um cancro nos pulmões em beleza e rápido. Aparece gente com jornais (A Capital) e sei que estão a vender para os lados do Império. Vou logo lá, sento-me num degrau e sei as primeiras notícias. Tá bem! Resolvo ir a casa do Henrique, ver se ele estará. Na Carlos Mardel, uma senhora num 1º andar pergunta-me onde vendem jornais. Digo e ofereço-lhe o meu. O marido, que vinha à rua, fica com ele e eu fico reduzido a 30$00. Começo com sede e angústias. Estou em jejum e já andei um bom bocado. Penso ainda ir ao Manaças (António) mas desde a última vez, desde a nossa última conversa, ele não me está a apetecer. E depois, o importante deve estar a acontecer na Baixa. Enfio ao Montecarlo (fechadíssimo) mas consigo topar um tipo a bater à porta da Mourisca (também fechada) e entrar. É que há gente. Vou, bato, o Costa Loiro está a forrar vidros por dentro com papel, talvez com receio dalgum obus. Peço-lhe vintes e ele despacha-me. Meto à Rua Viriato e vou até ao quartel de Santa Marta (todas as tascas fechadas até ali). Dá-me vontade de rir ver os cabeças de nabo reunidos lá dentro, a falarem uns com os outros (é que obedeceram às ordens?). Mas logo ao lado há uma tasca restaurante, porta meio aberta, com gente e muito movimento (guardas a beber, outro a telefonar para casa e sossegar a mulher (?), diz que não há azar). Bebo uma Sagres e como uma sandes. E avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem. Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar. Até que encontro, já não sei onde, o Almeida Santos e um tipo que é revisor no Diário de Lisboa ou no Popular, já não sei. Metemo-nos num táxi que sobe pela Calçada do Carmo. Mas logo populares avisam (ah, entretanto, perto do Tivoli, já tinha comprado um Diário de Notícias, com mais informes) que a rua está bloqueada. O carro faz marcha-atrás e mete (por onde?) para o Bairro Alto. Bebemos não sei o quê numa tasca, o revisor vai à vida, o Almeida Santos pira-se e eu avanço para os lados do Carmo. Na Rua da Misericórdia, muita gente, tropa e um tanque de respeito. Da janela da Redacção da República, o Vítor Direito e o Afonso Praça (aquele grita-me: “estás muito bonito hoje!”, eu levava o sujíssimo albornoz que me deu o Artur), noutra varanda o Álvaro Belo Marques, a quem pergunto: “como é que se entra para aí?”, porque a porta da escada da República está fechada. “Vai pelas traseiras!”. Vou mas também está fechada e logo à esquina aparece um vendedor com a última da República. É um verdadeiro assalto. Aí fico a saber dos chefes (Costa Gomes e Spínola) e o alvoroço é enorme. Já não sei bem: se vim ao Rossio, se de repente notei uma grande correria para o Terreiro do Paço. Sem perceber nada do que se passa, sigo a onda. No Terreiro do Paço, começa a chover. Há correrias e encontro uma rapariga que me conhece muito bem mas não topo logo. É a Maria João, a engenheira química, amiga do Henrique, com outro rapaz. Ficámos abrigados da chuva debaixo das arcadas, depois convenço-os a irem beber um copo ao Terreiro do Trigo (Campo das Cebolas?), não sei já se estava aberto se não. Ela tem o carro no Camões e para aí vamos. Mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a Pide. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga. Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega. Agarro um táxi e arranco para casa da São. Pela TV vi depois o resto. Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho.

Luiz Pacheco
*(edição de imagem de Paulo Araújo)

25 de Abril: 31 Anos

4/22/2005

Projector Gigante




Grupo de católicos inspirado pelos dons de comunicação de João Paulo II testa projector gigante para levar a fé a outros planetas. João Carlos Espada, Padre Frederico, Paulo Portas e a família de cançonetistas Câmara Pereira estão entre os promotores.
Tiago Fernandes

4/21/2005

Mikado



A miúda, cada vez que se atirava ao General deitava os outros por terra. Majores, tenentes, sargentos e soldados eram todos varridos pela manga da camisola da criança que queria sofregamente acumular os 20 pontos do espigão branco, o General. Era desastrada e ficava sempre em último lugar. Mesmo quando se continha e resolvia pegar antes num mero soldado para garantir dois pontos, dava um abanão nas pernas da mesa e fazia tremer a hierarquia militar. A desclassificação era automática. Começou a ficar com medo de jogar Mikado. Artur e Gilberto eram os parceiros de jogo, um ano mais velhos . O primeiro tentava aconselhá-la, o segundo bloqueava a cara, torcia para que ela não mudasse nunca e habituou-se à vitória “120 pontos, ganda baile!”. Uma tarde, a miúda não saiu de casa e ficou sozinha às voltas com o Mikado. Prometeu-se que dali não saía até ter pontuação suficiente para atirar à cara dos vizinhos. Sem pressões conseguiu somar 67 pontos mas não havia ninguém para os exibir. Estava a ficar com mau perder. Teve um ataque de raiva e atirou com os espigões ao ar. Ao caírem, um deles, um soldado vermelho, ficou preso num dos livros da estante dos pais. Cheia de raiva ao Mikado resolveu fazer uma pausa e dar uma vista de olhos n´Os Mineiros do Alasca do Emilio Salgari, o do Sandokan. Deteve-se num episódio em que três amigos tentavam fugir de um urso, um dos mais pacientes do reino animal. Só a custo lhe conseguiram escapar, tiveram de ficar três dias escondidos numa gruta até o urso desisitir e mesmo assim afastaram-se sempre a olhar por cima do ombro.
A leitura ficou por aqui, a miúda nunca conseguia chegar ao fim de um livro mas voltou ao Mikado e chamou o Artur e o Gilberto.
De novo à mesa, apertou os espigões com força e deixou-os cair. O General não ficou acessível, apenas um major amarelo e dois soldados vermelhos. “Tem calminha miúda, não tens idade para generais e para que é que os queres se não tens soldados, vê lá se cresces miúda” disse-lhe Artur. “Sim, sim, com esses conselhos a coitada da rapariga há-de ir longe...” reagiu Gilberto. Com todo o cuidado pegou nos soldados e no major e depois, sem querer, voltou a abanar a mesa. 14 pontos contra os 50 e os 100 dos parceiros. “São dois gandas ursos” pensou a miúda, “vou ter de esperar uns bons anos para ver se me desamparam a loja”.
MIKADO:
* Número ilimitado de jogadores
* Contém: 1 vareta branca (General)-20 pts
5 varetas amarelas (Majores)-10 pts cada
5 » azuis (Tenentes) -5 pts cada
15 » verdes (Sargentos)-3 pts cada
15 » vermelhas (Soldados)-2 pts cada
Atenção:Não aconselhável a menores de 3 anos pois contém peças aguçadas funcionais.
Catarina Miranda

4/20/2005

Marxismos Imaginários II




Dei um salto, como se tivesse apanhado uma chicotada. Atendi o telefone. Era o Pedro. Ela deixou-se cair na cadeira e acendeu um cigarro. É preciso ter muita lata. Chegar aqui com aquela atitude «e o resto do mundo que se dane». Aquela petulância de quem conhece a vida, muito senhora do seu nariz. Deu-me uma ponta de febre. Apeteceu-me trincá-la. Aquele corpo cheio de carne, a pele morena. As feições rústicas, simples. Nada de bâton nos lábios nem ganchos nos cabelos, nada nas pestanas, nada nas pálpebras. As sobrancelhas espessas, negras como um corvo. Os contornos da perna, as mãos quase aristocráticas. O gesto de pôr os cabelos para trás da orelha. Com as duas mãos corrigiu o penteado na nuca. Conheço o truque: não era tanto arrumar os cabelos soltos mas sim esticar os dois seios, pô-los em evidência. Depois puxou o vestido um pouco acima dos tornozelos. Apetece-me fazer-te um minete. Comer-te! Foder-te! Tinha o caralho a rebentar das calças. O Pedro pediu-me para apontar a morada da casa da miúda dele, onde o iria buscar no dia seguinte. Sim, amanhã íamos a Marrocos. Não me apeteceu dizer-lhe que já não ia com ele. Apertei um colhão por dentro do bolso das calças, alojei melhor o caralho, encostei o auscultador entre a cabeça e o ombro e escrevi o endereço. Desliguei o telefone.
Peço desculpa aos leitores pela indiscrição, pelas palavras indecentes, mas jurei a mim mesmo não omitir nada, dizer tudo, contar esta história tal como a vivi. Que me perdoem também as mulheres protagonistas destas histórias. A vossa identidade ficará só entre nós. Ou seja, entre mim e elas. Não sou escritor. Por isso receio não conseguir pôr qualquer ordem na minha narrativa. Com estas páginas pretendo tão-somente reviver, de certo modo, a minha juventude. Isto que aqui relato não é mais do que a realidade. E isto é só o princípio.
«Como se chama?», perguntei-lhe. «Diana», respondeu. Esmagou o cigarro no cinzeiro. Fiz-lhe nova pergunta: «toca algum instrumento?» «Não», disse ela, pousando um dedo no lábio inferior. «É que tem mãos de pianista...» Agarrou-se a mim. Beijou-me. Foi como saltar no vácuo, do alto de uma falésia. Reconheci aquele momento como algo de que me iria lembrar no futuro. O gosto a cinza. O hálito a resina. O bramido de uma leoa sedenta de amor. Pus-lhe a mão debaixo das saias. Tinha a rata orvalhada. Ouvi a porta do gabinete abrir-se. Era um colega meu, um professor velhíssimo, um velho libidinoso. Os académicos acabam todos assim. Arrastava-se por ali desde o Tratado de Tordesilhas. Entrou. Olhou-nos. «Boa tarde». Sentou-se na secretária. Felizmente não reconheceu a Diana como aluna do curso. Despedi-me, que estávamos de saída, que ficasse à vontade.
Directamente para casa dela. Fazer a mala e o mais que nos apetecesse. Desembarcámos do táxi. Vielas, becos, ruas com andaimes e escoramentos, prédios entaipados e desabitados. O átrio da entrada era iluminado por uma pequena lâmpada nua, suspensa no tecto. As paredes da entrada eram verdes como o tecido de uma mesa de bilhar. Entrámos. Senti humidade, frescura de adega. Instantaneamente, fotografei o interior da casa com os olhos. A sala, com as paredes inteiramente tapadas por livros, alguns quadros engordurados pelo tempo e pelo fumo dos cigarros, duas janelas, uma grande mesa no meio. No quarto, o amassado da roupa nas costas das cadeiras, roupa espalhada por todo o lado, parecia que tinha explodido uma granada no guarda-vestidos, cuecas sujas no chão, o cheiro a deboche, a desmazelo. Um quadro digno de um pintor qualquer. De volta à sala, disse: «despe-me!» Era uma ordem e, simultaneamente, uma súplica. Disse-o de uma maneira que soou sedutora, embora essa não fosse provavelmente a intenção dela. Furioso, com o ímpeto de Napoleão para arrebatar a Europa, comi-a com beijos. Ela mordia-me os lábios com os seus. Trinquei-lhe o lóbulo da orelha, franjado de penugem de fruto, os braços febris, convulsivos. Os meus dedos cavavam na carne, desenhavam-lhe sulcos na pele das costas. Meti-lhe uma mão entre as pernas e senti a pressão do ventre, através das saias. Despi-a. Beijei-lhe as duas coroas negras dos seios. Afastei-lhe bem as coxas e, com as duas mãos, abri-lhe a carne sumarenta e comecei a dar à língua, a fazer-lhe um minete no sofá. Pus-lhe depois um dedo na cona e outro no cu. Os olhos dançavam-lhe debaixo das pálpebras semi-fechadas. Tinha o coração entre as pernas. Esticou as pernas até à extremidade do sofá. O espasmo retesou-a, pô-la trémula. Levei-a então para o quarto e caímos os dois em cima da cama. «Gosto de foder contigo. Condiz com a minha personalidade. Ficas bem debaixo de mim». Ela disse que estava a ter descargas eléctricas, que tinha as orelhas a ferver. Baixou-me as calças e masturbou-me durante uns segundos. Depois enfiou-o na boca, enquanto o cabelo, disperso, se espalhava sobre as minhas virilhas. Lambeu-me os testículos (o meu nome é caralho e sou um soldado da I Guerra Mundial. Isto é o meu caralho que está a escrever). A partir desse momento o meu pénis ganhou vida própria, desobedeceu-me. Tinha o cérebro como carvão a arder. Chapinhei na mata espessa, no lago entre as pernas. Falei-lhe, ao ouvido, do amor e do prazer nos termos mais indecentes, utilizando palavras que queimam. Bateu-me no peito, mordeu o lençol, mexeu-se numa grande desordem, a contorcer-se, a debater-se. Mordi-lhe o pescoço, debaixo dos cabelos. «Vem-te cabrão vens-te ou não te vens», disse aquilo sem vírgulas, sem pontuação, com os músculos tensos, os cabelos agitando-se como chamas. Por Vénus! Isto sim que é mulher. «Mais depressa!» A cama, desconjuntada, estalava com os meus safanões furiosos. Como um vigoroso Hércules senti toda a minha força de homem agitar-se furiosamente por cima dela, as minhas veias estavam inchadas. O sobrado cedia e ameaçava estalar. O jorro quente, por fim, mais branco que as neves do Kilimandjaro. Naquele momento seria capaz de entrar no fogo sem me queimar, de entrar na água sem me molhar. Ela parecia esgotada, rubra de calor, com os cabelos em desalinho. A minha perna esquerda distendeu-se, doeu-me, senti uma cãibra. As mamas ainda arfavam quando rebentou numa gargalhada que se espraiou pelo quarto como uma onda. Ria doidamente. «Estrondoso, parece que fiquei sem cérebro, descerebrada!». Desprendeu-se de mim, levantou-se, “fazes-me peso, sinto-me esmagada”, e foi à casa-de-banho. Pensei: detesto ouvir gajas a mijar. Mas logo depois comecei a ouvir o barulho da água a cair na banheira. Ia tomar banho. Estava mesmo a apetecer-me ficar sozinho, deitado na cama, a olhar para o tecto. No 1º andar havia grande alvoroço, risadas, choque de vozes, ruído de portas. Vesti as cuecas e sentei-me na cama com as costas apoiadas numa almofada. Servi-me da garrafa de whisky que estava na mesa de cabeceira. Atingiu-me o estômago com uma explosão de calor. Sem pensar, e enquanto esperava por ela, peguei no livro mais próximo, no chão mesmo ao lado da cama, e abri ao calhas. «Eu mijava contra uns caniços nas traseiras da cubata (mijar depois de foder é a primeira condição para prevenir doenças venéreas) debaixo de um imenso rebanho de desconhecidas estrelas, incrustadas em veludo negro como diamantes pontiagudos, minúsculos. Sentia ainda as mãos, no pescoço, no peito, um aroma passivo, um aroma obediente de mulher. (...) Os internados da 8ª enfermaria, à falta de mulher, penetravam às escondidas com o pénis as nádegas uns dos outros, ou masturbavam-se no refeitório, de boca aberta, manipulando com os pulsos desajeitados os tufos magros da braguilha.» Benza-os Deus! António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno. Li sem prazer e sem aborrecimento. Fechei o livro, deixando um dedo entre duas folhas para marcar aquela página. Fixei-me nas costas da cadeira onde ela deixara as meias e as cuecas, nos vestidos pendurados no criado mudo. E o Pedro? Que se lixe. Ele que fique em Lisboa a engordar, a beber e a perder a memória. Depois, para o compensar, trago-lhe de Marrocos uma bolota, o haxixe que começa a borbulhar assim que aproximamos a chama do isqueiro e se cola aos dedos e ao tabaco como plasticina, como chocolate derretido. Mas lembrei-me subitamente de a Diana me ter dito que ontem tinha ido para a cama com o Pedro. Aquilo picou-me como uma vespa. O sangue fluiu-me no rosto. Senti um vago ciúme. Senti ganas de a mandar para o diabo, de cortar o pescoço do Pedro. Olhei para o meu pénis, estava flácido, pendente. Apeteceu-me enrolar um charro, fumar, ficar com o cérebro dormente, sentir o formigueiro. Depois de vários minutos a levantar diversas peças de roupa, a atirá-las para o ar, encontrei finalmente as minhas calças. Trazia sempre pequenas pedras de haxixe soltas no bolso, como se fossem rebuçados. Desprendi uma folha do livro de mortalhas, espalhei metade de um cigarro na concha da mão, fiz o filtro a partir de uma pequena tira de cartão que enrolei com a ponta dos dedos, um filtro pequeno (quanto mais pequeno o filtro maior a moca; quanto maior o percurso que o fumo percorre, mais resina fica no filtro ou no papel, menor a pedrada). Coloquei depois a pedra de haxixe em cima da lâmpada acesa da mesa de cabeceira. Deixei-a a aquecer durante 3 minutos, o cheiro denso da droga começou a invadir o quarto. Antes de enrolar, pus um risco de coca por cima do tabaco já misturado com o haxixe. Fumei, retendo o fumo nos pulmões o máximo de tempo que conseguia. Expeli o fumo, tossi violentamente, senti o farfalhar dos pulmões. Ao fim de cinco minutos já tinha os olhos intoxicados, dilatados, brilhantes. A boca começou a secar. Engolia a saliva com esforço. As raízes dos cabelos crepitavam. Os raciocínios, em salto de cavalo, ecoavam no cérebro. O coração começou a bater com uma rapidez espantosa. Sentia-me vivo como uma flecha, tinha ideias para encher várias Bibliotecas de Alexandria. Os meus pensamentos planavam muito alto, como grandes aves de rapina. Na minha cabeça havia legiões romanas a chegar e a partir. Aos meus ouvidos chegavam os passos dos soldados a marchar, naquele turbilhão de joelhos mais rápidos que os sentimentos. As palavras voam-me da língua. Estão de passagem mas não têm a culpa. Divagava, melancólico. Ia deixar-me adormecer quando a ouvi falar. Ao telefone. «Era para lhe dizer que está tudo bem. Com quem estou...? Claro, claro que sim... Como é que está o tempo aí? Aqui está calor. Tenho feito tudo certinho. Sim, não me esqueço, para a semana, quinta-feira, às 16h.» Desligou. Prostrou-se à porta do quarto. De cuecas, com uma toalha na cabeça como um marajá. Calçava meias pretas, compridas, subidas acima dos joelhos, como uma interna no colégio. Cheirava a banho quente, a água escorria-lhe ainda pelo rosto, como metal. Reparei que tinha um ombro mais alto do que o outro. Com a ponta do dedo indicador molhada de saliva fiz uma gravata e passei-lhe o charro.

António Vergara

4/19/2005

A Minha Mulher III

O Sábado trouxe-me finalmente a Eufémia. A casa tinha chegado àquele ponto de desarrumação em que só nos apetece fugir. Não havia um prato ou um talher lavado, o sofá tinha substituído a cama pouco convidativa, o chão tinha areia e pó e eu andava a comer sopas knorr há uma semana. Não me apetecia fazer absolutamente nada a não ser esperar pela Eufémia e fazer-me de vítima.
Quando meteu a chave à porta e entrou vi-lhe claramente uma expressão de quem tem vontade de desaparecer ou de me espancar, de quem se arrependeu por trazer na mão um ramo de orquídeas para me oferecer e me provocar. Ela sabe perfeitamente que as flores me cheiram a velório. Fez um esforço sobre-humano, ignorou o desalinho doméstico e entrou num monólogo enfadonho e interminável. “Se a D. Patrícia pudesse imaginar a inteligência das flores”. Tentou convencer-me de que o facto de elas estarem paradas e em silêncio esconde a mais pura revolta contra o destino. Porque as flores conseguem libertar-se do escuro das suas raízes em direcção à luz do sol, porque são ambiciosas e teimam salvar-se, por cima, à fatalidade de baixo. Conseguiu provocar-me uma gargalhada, fazer com que me levantasse do sofá e começasse a varrer o chão da sala. Perguntei-lhe onde é que tinha ido buscar aquela ideia e ela tirou do saco um livro pequenino chamado “A Inteligência das Flores” de um tal de Maurice Maeterlinck. Pediu-me autorização para ler algumas passagens enquanto eu arrumava a casa. “Força! Mas acho pouco provável que mude de ideias em relação às flores”. Eufémia encolheu os ombros e leu-me numa voz desafinada:
“Nunca me esquecerei do admirável exemplo de heroicidade de um enorme loureiro centenário. Lia-se facilmente no seu tronco, torturado e convulsivo, todo o drama da sua vida tenaz e difícil. Desde as suas primeiras horas, enviara as cegas raízes à longa e penosa busca da água incerta e da terra vegetal. Mas isso era apenas o cuidado hereditário de uma espécie que conhece a aridez do Sul. A haste juvenil tinha de resolver um problema muito mais grave e mais inesperado: a árvore rompia de um plano vertical de maneira que a sua fronte, em vez de se erguer para o céu, se inclinava para o abismo. Fôra pois necessário, apesar do peso crescente dos ramos, emendar o primeiro impulso, dobrar o tronco, pertinazmente, ao nível da rocha e – como um nadador que deita a cabeça para trás,-manter assim, por um esforço de vontade, por uma contracção incessante, bem direita para o firmamento a pesada corôa de folhas”.
Quando acabou a leitura, Eufémia ergueu os olhos e ficou à espera que me desdobrasse em elogios e em curiosidades do tipo onde é que descobriu esse Maeterlinck. Continuei a varrer, não olhei para ela e disse-lhe: “Se não fosse a Eufémia com os seus livros de “auto-ajuda” esta casa ficava um nojo. Pronto acabei de varrer”. Eufémia largou o livro, arrancou-me a vassoura , agarrou-me o maxilar direito com uma mão e mais uma vez tentou beijar-me. Só que agora não deixei, prendi-lhe os ombros, encostei-a à parede e beijei-a eu. Ficámos nisto quase dez minutos até que ela sugeriu que fossemos mudar os lençóis da cama. Beijei-a de novo e disse-lhe que ficava para o próximo Sábado.
Patrícia H.

4/18/2005

Rabisco

Dias Internacionais


Castelo de Penedono, Concelho de Meda

O maravilhoso mundo dos Dias Internacionais da Luta Contra a Droga, da Mulher ou do Piriquito Gilberto, diz-nos que hoje, 18 de Abril, é o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios Históricos. Feliz dia!



PS: Decidi acrescentar algum teor cultural a este blog (alguém tem que fazer o trabalho sujo) inaugurando uma coluna com os Dias Internacionais. Futuras publicações: Diário para Ela e Diário para Ele.

Ana Ataíde

4/16/2005

Um homem com quem apetece conversar



Há 15 anos estive no Brasil. Foi uma viagem de família que, segundo a memória fraca da minha mãe, não correu como deve ser. Eu andava mal disposta, o meu irmão perdeu a bagagem. Percorremos vários aeroportos onde encontrámos alguns actores da novela das oito.
Dessa viagem ficou-me o nome de Oscar Niemeyer. Na fotografia aí de cima, Oscar devia ter mais ou menos a idade que tenho hoje... quer dizer... vendo bem, tem bastante mais (a mania do tiro no pé). Tem uma expressão viva e convicta, um olhar prometedor, bem longe do tipo contentinho convencido de si próprio mas que, na verdade, não passa de um pateta. Ouvi falar dele quando cheguei a Brasília numa camioneta com ar condicionado e com um guia que numa ordem fez com que todos nos equipássemos com litros de água:
“Atenção, minha gentche, aqui o sol não brinca. Em nenhum outro lado do país faz mais calor do que em Brasília. Aqui não dá meismo páguentá. Quem se atrevê a ir lá prá fora sem água pódji morrê disidratádô ou começá tendo miragem”.
Quando saímos foi um alívio. Pela primeira vez em todo o Brasil eu voltei a sentir o mesmo calor seco de Lisboa. O grau de humidade era zero e a temperatura chegava quase aos 50 graus. A isto estava habituada, ao calor húmido é que ainda não. Nem por uma vez levei a garrafa de água à boca. O guia desmultiplicou-se em explicações e historietas sobre a “cidade perfeita” e o seu arquitecto de apelido alemão e com ascendência portuguesa, árabe e até talvez africana.
Em síntese, para quem não a conhece, é uma cidade resolvida, correcta e impecável. Nos blocos habitacionais ninguém precisa de sair para ir às compras ou levar as crianças à escola, está tudo encastrado no condomínio. Estradas largas e suaves com pequenos desvios para clubes desportivos e de convívio. A cidade é recta, a arquitectura é curva e elogiada mundialmente. É limpa. O guia informou-nos que a “cidade perfeita” era onde se registava a maior taxa de suicídios do país. Achámos natural mas ao longo destes anos apenas hoje, durante uma dor de dentes e uma breve passagem pela entrevista a Nyemeyer na revista Sábado, voltei a olhar atentamente para a sua expressão, agora com 97 anos. Nunca confirmei se a história dos suicídios era verdadeira, imagino que seja mas sempre desejei que fosse o próprio Oscar a explicar-me como é que encarava a consequência da sua cidade. Sempre o admirei porque foi ele quem me fez sentir pela primeira vez a importância e a gravidade da arquitectura na vida de um povo, ainda que seja o mesmo homem que diz que “a arquitectura não ajuda em nada porque esteve sempre voltada para as classes dirigentes” e que sentir e ser cordial é mais importante do que todo o seu trabalho. Acredita que o comunismo ainda pode melhorar a vida, vive e adora o caos do Rio de Janeiro mas se voltasse a construir Brasília não mudaria uma vírgula. Recusa a legenda do revolucionário e assume sem hesitar a do revoltado, sabe que se ama ou se odeia a “cidade perfeita” mas sabe também que no mundo não há outra igual. Oscar Niemeyer tem hoje a expressão de um dos poucos homens com quem eu mais gostaria de conversar.

Catarina Miranda

4/15/2005

Ensaio Sobre a Liberdade

Entrei em casa da Maria. Estava frio e as paredes estavam sujas. Despe a camisa. Disse. Levantei a cabeça num movimento brusco. Apetece-me foder! E foi tudo, um pensamento obsceno e uma exclamação. Apetece-me, caí para atrás e encostei a nuca à parede. Segurava na mão esquerda um saco com duas garrafas, uma de whisky outra de água. Começou a falar, desconexa. Não quero saber como consegues continuar nessa vida... continuar a beber sem fazer nada... sem trabalhar... nessa tua passividade obtusa... Como é possível estar neste estado?, pensei, já não me aguento em pé, sinto-me mal-disposto, acho que vou vomitar.
Fui até à casa de banho. Abandonei o saco, bati com a cabeça na parede, não me importei, continuei, entrei, sentei-me junto à sanita gelada. Pouco me importava se estava mal ou bem. Tanto me fazia. Vomitei mas não me libertei do cordão umbilical do vómito espesso que saía da boca. Senti uma mão a passar pelo cabelo. Com delicadeza. Era bom sentir uma mão tranquila, sem perguntar nada, sem falar, apenas a tocar-me. Disse que a amava. Parecia tão sincero, senti-me sincero.
Acordei. A sinceridade perdeu-se às três da tarde, quando dava uma olhadela no quarto, onde ela dormia, semi-nua, em cima dos lençóis. Não quero nada daquilo, pensei. Saí de casa, entrei num café. Enquanto segurava a chávena de café no ar olhei confuso o movimento da rua e as mulheres que passavam. Bebi em pequenos goles até o açúcar escorrer, castanho, pelo lábio inferior. Poisei a chávena, acendi um cigarro amarrotado e húmido. Recostei-me nas costas da cadeira. Lembrei-me do encontro que tinha com um colega da Faculdade, o meu orientador de Doutoramento. Às seis e meia da tarde aqui no meu gabinete. Temos de projectar o trabalho de investigação da próxima semana. Disse-me uma semana antes.
Apanhei um táxi. Para a Av. de Berna, por favor. Tenho pressa. Um pouco mais depressa. Não posso ir mais depressa, o trânsito está um inferno. Saio aqui. Está bom assim. Obrigado. A porta bateu com força. Boa-tarde professor. Trouxe o que lhe pedi? O quê? A recensão do artigo sobre o Tocqueville? Esqueci-me! Sente-se aí. Sentei-me. O que é que você julga que anda aqui a fazer? Tem de trabalhar, caso contrário não acaba isto. Você está na corda bamba. Eu sei, quase sorri.
No passeio, em direcção ao Campo Pequeno, senti um braço tocar-me o ombro. Fixei os olhos verdes e grandes de uma amiga. A Susana. Estás bom, rapaz? O que é que tens feito? Vem comigo, disse, foge comigo, vamos de comboio, até ao norte. Apanhamos agora o comboio. Estaremos em meia hora em pleno campo. O que é que tens? Nada, quero ir-me embora até ao norte. Estás doido? Adeus.
Afastei-me. Um whisky, por favor. E gelo, também. Não parei de beber até me ter lembrado, duas horas passadas, de telefonar ao Luís. Vem daí beber uns copos comigo. Estou aqui na Av. 5 de Outubro, num café. Não fiquei à espera dele. Não me apeteceu. Ele que nunca mais me falasse, que me esquecesse. É tão bom esquecermo-nos destas coisas, pensei. Apanhei o comboio. Nunca mais pensei na Maria.

António Vergara

4/14/2005

A Vida Dura: Auto-Retrato de Manuela Ferreira Leite


"Temos de lhes ensinar o que é a vida dura"




Sempre gostei de algarismos. Sinto uma atracção incoercível por taxas de juro, índices de inflação, dividendos, rendimentos, quocientes financeiros. Tudo isso desperta em mim uma forte sensualidade. O prazer sublime das estatísticas e dos cálculos de probabilidades, a elegância das demonstrações matemáticas e das curvas em sino, a capacidade de emocionar-se com a subida e a descida das acções da Bolsa. As obras da natureza não me suscitam tanto interesse como as criações humanas. Bem sei que as fontes de prazer variam consoante o indivíduo e que há pessoas que apreciam mais a estética do pescoço de uma girafa ou de uma fileira de elefantes. Compreenda-se: esta inclinação para os números é superior às minhas forças.
Detesto a desordem, não tolero a incerteza. O caos provoca-me aversão e o improviso produz-me arrepios. Qualquer indício de desleixo sufoca-me. A visão de gavetas onde se misturam, confusamente, miscelâneas de objectos, trapos, fitas, bocados de coisas, provoca-me calafrios. Cultivo as regras e a disciplina, não o acaso, o imprevisto, o golpe de sorte. Pessoalmente, considero que tudo existe para ser arrumado, catalogado, contado. É da organização que eu gosto. Em cada mínimo detalhe preciso de ter uma sensação de eficiência e de arrumação. A minha casa é um mundo de ordem e de asseio, nada está fora do lugar. Tudo está segundo as regras, como deve ser.
Há em mim uma nostalgia da ordem originária. Talvez por isso sinta uma necessidade inadiável de perfeição e de simetria. Os meus livros estão alinhados nas estantes pelas cores das lombadas, assim como as minhas roupas, dobradas e arrumadas por cor. Detesto quadros tortos nas paredes. O volume do rádio tem de aparecer sempre em números pares. No frigorífico, os produtos estão arrumados de acordo com a roda dos alimentos. Peso escrupulosamente aquilo que como e sei com precisão os seus ingredientes. Dos peixes a pescada é o mais rico em potássio enquanto o bacalhau o suplanta em azoto. Quando trinco uma maçã, digamos com 150 gramas de peso, sei que ela contém 80 calorias, 22 gramas de hidratos de carbono, 16 gramas de açúcares (fructose, glucose e sacarose) e cinco gramas de fibras, em particular a pectina, responsável pela diminuição do colesterol. Contém ainda diversas vitaminas (C, B1, B2 e B6), potássio, fósforo e cálcio. Além disso, a maçã é dos poucos frutos que podemos consumir sem deixar de realizar outras actividades (não é por acaso que ainda hoje a maçã é o fruto mais consumido no horário laboral do Ministério das Finanças). Sou daquelas pessoas para quem o ritual é tudo. Por exemplo, comer um ovo estrelado exige método e destreza: primeiro a clara, com cuidado para não fazer derramar a gema, que deverá depois ser levada à boca de uma só vez.
A minha ocupação preferida é planear, somar factos no bloco de notas: fusos horários, regras de jogos de cartas, crises financeiras históricas, conferências do Fundo Monetário Internacional, datas dos choques petrolíferos e das crises energéticas, os reis de Portugal e os rios da Europa, os papas e suas datas de eleição (incluindo os antipapas e os papas duvidosos), programas para ensinar de maneira sistemática a geometria algébrica e os clássicos greco-latinos, a métrica de Ancient Mariner, de Coleridge. Os meus poemas favoritos são “Pontualidade” e “Normas e Preceitos”, do reverendo Charles Lutwidge Dodgson. A poesia portuguesa repugna-me, em particular a obra de Fernando Pessoa, o poeta que afirmou coisas tão deploráveis como “amanhã pensarei em depois de amanhã” ou “ah, a frescura na face de não cumprir um dever!”
Mentalmente faço listas de tudo, dígitos das contas bancárias, extractos de conta, a composição de uma nota de 500 euros, tabelas matemáticas, equações, fórmulas, teoremas, axiomas, acrósticos, anagramas, monogramas, postulados, definições, proposições, paradoxos. Tenho o cérebro povoado dum número estonteante de nomes, de caras e de endereços. Folheio-o como outros folheiam a lista telefónica. A minha cabeça é um arquivo imenso de que vou voltando as páginas uma a uma. Não se julgue, porém, que sobrecarrego o pensamento com pequenos pormenores que me afastam das matérias de maior importância. Na minha mente disciplinada tanto incluo os preços da mercearia e da papelaria da esquina como a evolução do Dow Jones e dos valores tecnológicos, o preço de um novo aspirador como os números do fluxo do comércio internacional, a despesa mensal no salão de cabeleireiro como as entradas e saídas dos investimentos directos estrangeiros, o preço de uma máquina de lavar como os índices do consumo de energia por habitante ou a estrutura da dívida externa dos países em vias de desenvolvimento.
Sou uma mulher de acção, não de palavras. Conversar é uma perda de tempo. Durante o governo de Durão Barroso contabilizei as conversas que tive com outros ministros, com secretários de Estado, directores-gerais, assessores, etc. Durante esses cerca de dois anos mantive 6 mil conversas. Ora, considerando que essas 6 mil conversas tiveram a duração média de uma hora o tempo legal perdido com elas andou perto dos 3 anos. O tempo é uma mercadoria rara, é um capital preciosíssimo. O tempo é como um livro de cheques: deve ser utilizado com prudência e frugalidade.
O nosso país está cheio de gente preguiçosa. Gente que só pensa em restaurantes de luxo, no barulho da noite, em festas de gala, nas conversas de salão. Gente que identifica altos níveis de consumo com o sucesso social e com a felicidade pessoal e que escolhe o consumo desenfreado e o hedonismo descabelado como objectivos de vida. A nossa sociedade precisa de ser reformada de alto a baixo. Precisa de aprender o gosto da poupança, da disciplina, da organização. Portugal precisa de trabalhar sem descanso. Portugal precisa de saber o que é a vida dura.
João Pedro George

Mestre de Judo

Estive seis meses ausente dos tapetes por causa de uma lesão muscular. Treinei nestes últimos 15 dias mas não acredito que tenham sido o suficiente para recuperar por completo as minhas capacidades.
Sou cinturão branco, categoria ligeiro e fui derrotada, há meio ano, pela Daniela, com a mesma cor mas com a categoria leve. Havia gente a assistir quando me levou ao tapete. Os aplausos foram arrasadores, de tal maneira que continuo sem acreditar que um treino de 15 dias seja o suficiente para voltar a mim.
Agora, quando pratico judo quase não me aproximo do que me parece sempre ser uma adversária.
Kano é o meu mestre e ainda não parou de gritar comigo:
-...mas você 'tá com medo do corpo a corpo? É alguma aversão?
-...não, antes pelo contrário... só tenho medo de me magoar... ou de magoar alguém...
- ó rapariga, use a força e junte-lhe a alma ou 'tá com medo das competições?
- Se bem se lembra, mestre Kano, nunca tive medo da competição... desisti quase sempre em vésperas de torneios.
- Isso não é medo, é pavor, agora percebo as suas lesões! Você anda a passear o kimono, é igual às outras. Você sabe lá o que é um samurai!
- MESTRE!!! (gritei-lhe), eu não quero ser um samurai.
- É natural, a sua ambição está no ground zero... sempre esteve.
- Não se preocupe, passo bem sem a ganância.
- Quem é que falou em ganância? É o apetite, a sede, a vontade, a paixão... está tudo no ground zero.
- é natural mestre, ando entediada.
Olhou-me com tal raiva que a cara lhe estremeceu. Ia rematar com qualquer coisa mas conteve-se e fez menção de me virar costas. O silêncio dele foi ensurdecedor ao ponto de me acordar de uma dormência de seis meses. Agarrei-lhe no ponto certo e completo do braço e levei-o ao tapete. Ficou ali estendido durante um minuto. Durante esse tempo fixei-lhe o olhar. Ele riu-se desajeitadamente e mandou-me um "vou dar-lhe o benefício da dúvida".

Patrícia H.

4/13/2005

Praia Grande



Diogo Freitas da Costa, 2004

O Público e o Expresso

Agora para se ler o Público na net tem de se pagar. Não sei qual foi a justificação, mas lembro-me de há uns anos, num editorial do Expresso, defender-se que era assim que faziam os grandes jornais de referência mundial. E o Expresso como é conhecido de Bariloche a Katmandu é claro que também não podia ser lido à borla. A maralha que pagasse. Fiquei desta forma esclarecido que para o Expresso o International Herald Tribune e o New York Times, que diariamente pela manhãzinha recebo na caixa de e-mail sem pagar um centavo, não fazem parte desse selecto grupo. O Expresso prefere antes a companhia d’O Correio de Bratislava, que em cada edição estampa no cabeçalho as máximas morais do grande colunista João Carlos Espada. É assim que por aquelas bandas homenageiam este pensador pelo seu contributo para a queda do comunismo. O Público junta-se agora ao clube. Mas eu sou um leitor fiel. E por isso vou fazer a assinatura. Não é por mim que vão à falência e que o Belmiro os põe a todos a lavar o chão do Continente. Aliás, este meu exílio não seria suportável sem o genial Prado Coelho, que ainda há umas semanas se extasiava com a colecção de fotografia do Ministro da Economia e daí antevia uma nova política económica. Como é que eu não pensei nisto? Afinal, Frederico II da Prússia, amigo de Voltaire, embora à pancada, juntou os Estados germânicos. Catarina da Rússia, patrocinadora das artes, mandou todos os amantes para os calabouços e unificou o sul da Rússia, levando assim a prosperidade aos bárbaros do Caucaso. E Hitler e Goering, o primeiro pintor, o segundo ávido coleccionador de arte, muito antes de Monet, se bem que por meios heterodoxos, já promoviam o mercado único europeu.

Tiago Fernandes

Fuga ao tsunami com a devida antecedência (III)

Na manhã seguinte estamos os três à mesa do pequeno-almoço ao ar-livre, vendo o amanhecer sobre a ria. O viajante quer saber que dia é, mas os holandeses andam nestas andanças há mais tempo e menos sabem, eles que até já foram ao Laos - o Laos, sim, percorreram o norte onde o único meio de transporte eram as traseiras dos camiões de carga que seguiam por estradas por asfaltar e tu, que apenas tiveste coragem para atravessar uma selva urbana, rois-te de inveja por nem sequer ter estado nos teus planos lá ir. E no entanto, a falta de entusiasmo com que se referem a um dos países mais fechados leva a pensar se isto das viagens é mais aquilo que se vê ou a forma como se olha.
O long tail sai devagar do ancoradouro, deixando passar a canoa longa, veloz, ali vai outra vez a vintena de homens da ria a remar. Gritam a plenos pulmões, alegres, sem receio de consumirem as energias num esforço que não dá de comer aos filhos, sinal de que as mulheres é que fazem dinheiro lá em cima sobre as estacas, vendendo aos turistas - e porque não, se na Ásia o comércio é a omnipresença?
A ondulação dilui-se e a expedição prossegue por uma geografia inédita, milhares de ilhas, milhares de pontos de que um mapa não é capaz de dar conta, vultos que aparecem e desaparecem ao sabor das brumas oceânicas no lugar incerto onde a baía de Phan Gna acaba e o mar começa. O viajante lamenta-se por não ser solitária a sua navegação através de tudo isto, mas agradece haver um barqueiro que o conduz a uma gruta inundada - e secreta, dirá ele a todos os excursionistas, homem paciente que espera que ele se banhe debaixo da chuva miúda na lagoa verde-esmeralda como nos anúncios das 8 noites/7 dias com transfer e pensão completa.
Pela tarde vai dizendo os nomes das formações, Khao Tapoo, Koh Khai, Koh Phanak, Kao Pingkan, a ilha unha ou de James Bond a ser o auge, onde Phan Gna se cruza com os magotes de visitantes vindos de Phuket, a apenas alguns quilómetros. Ali está o grupo de japoneses uniformizado no colete salva-vidas, nenhum deles sabe nadar, diz um dos holandeses do Laos, mas não apontes porque isso é por aqui um grande insulto.
Paulo B.

O entrevistado e o entrevistador

Porquê? É a pergunta que nos deixa mais desconcertados. Só há dois tipos de pessoas que a fazem: as crianças e o bom curioso. É também a pergunta que pode, no final, provocar a resposta esclarecedora.
Luiz Pacheco publicou algumas das suas entrevistas dando a entender que eram de sua autoria: "reparem nas entrevistas que eu dei" e não o habitual "reparem nas entrevistas que eu fiz", como é característico dos jornalistas. As perguntas feitas a Luiz Pacheco quiseram sempre ser espirituosas e doutas mas só as respostas o conseguiram ser. Nenhum entrevistador se lembrou de perguntar ao Pacheco porquê? Nessas entrevistas, Luiz Pacheco revelou-se um homem interessante e curioso mas, para mal de todos nós, nunca se revelou a si próprio. A única conclusão que daí podemos tirar é que os entrevistadores/jornalistas portugueses não têm jeito.
Catarina Miranda

4/12/2005

Novo Comentador do Não Sei Brincar

A Visão tem Boaventura de Sousa Santos, António Lobo Antunes e Adriano Moreira. O Diário de Notícias tem Ruben de Carvalho, Miguel Esteves Cardoso e Vicente Jorge Silva. A SIC Notícias tem Luís Delgado e António José Teixeira. O Público tem Eduardo Prado Coelho, Miguel Sousa Tavares, João Bénard da Costa e Vasco Pulido Valente. A RTP tem Marcelo Rebelo de Sousa e Carlos Magno. O Expresso tem Clara Ferreira Alves, Inês Pedrosa e Manuel Alegre. A Capital contratou recentemente Mário Soares e António Mega Ferreira. Tudo gente de alto coturno, não haja dúvidas. No entanto, e porque aqui no Não Sei Brincar não brincamos em serviço, podemos adiantar aos nossos leitores que em breve teremos como comentador e colaborador o ilustre Pipi. É isso mesmo, a partir de agora e a qualquer momento, Pipi vai escrever no Não Sei Brincar assinando uma coluna intitulada «O Meu Tubo de Escape», um conjunto de retratos à la minete dos blogues mais conhecidos do país. Não percam, aqui, no Não Sei Brincar: Pipi em discurso directo.

P.S. Após ter entrado na sala de comentários a propósito do texto “Karater”, Pipi ofereceu-se para colaborar connosco. Saltou para o Esplanar e endereçou um mail ao JPG, o primeiro alvo da sua crítica, desafiando-nos a publicar os seus textos. Depois de reunidos os elementos do Não Sei Brincar, decidiu-se de imediato e por maioria absoluta que Pipi passaria a fazer parte da lista dos nossos colaboradores externos.

Ass: Não Sei Brincar

Karater



Tia Avó zangada: estou preocupada... esta menina tem de se lhe formar o carácter...

Menina: o que é o carácter?

Mãe: sim, agora explica-lhe o que é o carácter...

Tia Avó zangada: ela não tem nada que saber o que é o carácter... é preciso é que se lho forme...

Menina: ah... já sei... carácter é karaté...

4/11/2005

Comments

A grande ambição do blogue Não Sei Brincar não é a de publicar os melhores textos do mundo.

A grande ambição do blogue Não Sei Brincar não é a de ter grandes audiências.

A grande ambição do blogue Não Sei Brincar não é aprender a brincar.

A grande ambição do blogue Não Sei Brincar não é a de ser um espaço de referência.

Isso são apenas quatro desejos difíceis de concretizar.

A grande ambição do blogue Não Sei Brincar é a de conseguir juntar os melhores comentadores e os melhores comentários.

António Vergara, Catarina Miranda, João Pedro George, Patrícia H.

A notícia do dia

Ouve-se hoje nos media até à exaustão que se nos próximos seis meses chover muito pouco, vamos ter um nível de seca como só se vê de centenas em centenas de anos, de acordo com um estudo do Instituto de Meteorologia. Mas o único facto sólido aqui é que até agora tem havido muita falta de precipitação - apenas juntando este facto com o pior cenário é que o Instituto chega a tamanha catástrofe, que é um entre outros resultados possíveis.
Com este tipo de raciocínio também eu faço grandes notícias. Num dia em que chover a potes direi: se os próximos 39 dias continuarem assim, vamos ter as maiores inundações desde o Dilúvio. Isto faz lembrar, como aconselhava o meu avô, a cura de S. Silvestre: corta as ervas daninhas a 31 de Dezembro, e nesse ano não voltam a crescer.
Paulo B.

4/10/2005

Fluving


Descobri esta palavra quando lia o livro que nesta altura me acompanha para onde quer que vá. Estou num desses momentos de sorte: despachar o que tenho a fazer para poder dedicar-me a uma só história; lê-la muito devagar para que tão depressa não tenha de ir ler outro livro.
No final de uma página esquerda, a autora descrevia uma cena e reproduzia o diálogo entre quatro amigos num bar.
Um deles dizia uma frase qualquer onde metia uma palavra: Fluving. A autora explicava de imediato de onde tinha saído este novíssimo termo inglês: Fluving é a mistura de Fucking mais Love.
O efeito da palavra foi o mesmo de quando um detalhe nos satisfaz plenamente o entendimento. Pensei: “epá, exacto, é isto mesmo… e conseguir estar em fluving é, com certeza, uma das melhores sensações que posso ter”.
O que a seguir me aconteceu foi aquela típica impotência de arranjar em português um termo semelhante, que soasse tão bem e que fosse tão categórico, certo e decisivo como FLUVING. Qual será a tradução? Alguém quer dar uma ajuda?
Patrícia H.

4/09/2005

Os Vencedores



1º Teresa - Não Sei Remar Contra a Maré

2º Rui Fernando Santos - Não Sei da missa a metade

3º Kim - Não Sei dizer devagar depressa

4º Teresa - Não Sei como é que se faz das tripas coração

5º Tumadi - Não Sei fazer a folha

6º Paula Fialho - Não Sei fazer rissóis

7º Maria das Flores - Não Sei para onde vão os blogues quando morrem


Menção Honrosa: Dias - Porque foi o único que verdadeiramente não soube brincar! Em vez de libertar a sua própria ignorância recorreu à enciclopédia e transformou o concurso Não Sei Brincar num trivial pursuit.
Ana Ataíde, António Vergara, Catarina Miranda, João Pedro George, Patrícia H.

4/08/2005

Concurso Não Sei Brincar





Os nomes e as frases vencedores serão divulgados durante o fim-de-semana.
O concurso ainda está a decorrer.

Ana Ataíde, António Vergara, Catarina Miranda, João Pedro George, Patrícia H.

4/07/2005

A Capital


João Pedro , só te fica bem denunciares o carácter de quem anda à frente da Comunicação Social mas não me parece que isso tenha grandes consequências. Eles estão instalados e ai de alguém que os chateie. Borrifa-te para isso. Andas a promover o Luís Osório. O gajo até te agradece.

Catarina Miranda

4/06/2005

A Procura



Porque fomos caçadores, procuramos e fazemos da procura a essência de tudo e somos reduzidos por ela e por nada mais da mesma forma. Fazemos dela um fim, um objectivo total, tão completo em si próprio que, por desejar prolongá-la indefinidamente, tememos por natureza, o encontro, evitamos a captura como definição. O gato, também ele caçador, procede exactamente assim, porque é a perseguição que o apaixona.
Fazemos a procura com amor, portanto, cativamo-la como quem aconchega alguém nos braços. O amor é uma ideia difícil porque contém um esboço da noção de encontro. Nada a explica melhor que a confluência dos rios que, no mesmo momento e no mesmo lugar, misturam as suas águas, dando-se mutuamente. Mas, dar-se não é encontrar e por isso, o rio que foi rios, engrossado agora, prossegue a sua busca.
Assim, é importante a diferença entre homens e rios e toda a espécie de encontros. Mas falemos primeiro do amor: de todos os pontos do universo nos chega um apelo constante, respiramos fundo e enchemos com uma sua infinita parte todas as nossas células. Nenhuma será demais e estaremos então, amando. Pelo contrário, experimentemos espalharmo-nos nas mais pequenas fracções em redor de nós próprios. Estaremos ainda assim fazendo o mesmo e nenhum recanto do universo será alheio à nossa dádiva.
Associemos num único instante as duas acções e estaremos então vivendo em plenitude o verdadeiro momento do amor. Sabendo prolongá-lo, nada se quebrará nunca dentro de nós, porque se abriram as portas do absoluto, para dentro e para fora.

E no entanto, são milhares as faces do amor.

Se vires uma casa fechada no meio de um campo, não forces a sua porta, porque entrarás depois numa ruína. Ao contrário, as marcas que lhe deixaste, deixou-as ela em ti e a casa terá então aberto as portas à tua própria existência.
Onde houver um espelho, não te verás, mas o que destruíste. Terás então, a expressão de um gato triste, que é a expressão mais triste do mundo.

Amar é também vigiar o sono dos amigos e dos inimigos. O despertar de uns, será a tua oportunidade de retribuir... o de outros, a de cativar.

A casa de que te falei, pode bem ser eu própria. Encara-a como um templo e explora-a lentamente, com o seu consentimento e com a tua ternura, porque ela é límpida e frágil como um copo de água. Se a agredires, nunca mais a terás. Um copo partido não será mais um copo e seja o que for, estará sempre vazio.
Percorre-a com suavidade e ela ir-se-á abrindo para ti, permitindo a tua procura permissiva, como as flores o são com as abelhas.
Vai então dar-te, certo que o farás inteiro, com convicção, mas também com humildade.

Convicção tão forte que nenhum poder possa abalar. Humildade tão profunda que te torne sensível ao mais leve argumento.


Ana Ataíde

Interrupção Voluntária da Gravidez

Tenho um filho com oito anos. Nunca consegui habituar-me à ideia deste Vítor pequeno, sempre atrás de mim, atrás de mim, atrás de mim... nunca ao meu lado, muito menos à minha frente, porque passo a vida a evitar-lhe a existência.
Este filho solicita-me obssessivamente. Quer contar-me como foi o seu dia, o que aprendeu na escola, quer ver televisão ao meu colo, pede-me abraços, pede-me beijos, quer ser do benfica se eu fôr do sporting e pede-me para jogarmos matraquilhos. Empurro-o sempre mas discretamente, digo-lhe que não tenho tempo, que preciso de trabalhar. Durante o dia não o vejo, esqueço-me dele mas ao final da tarde sou obrigada a ir buscá-lo, levo-o para casa e comporto-me de maneira a que ele perceba que tem de se arranjar sozinho. Fala pelos cotovelos. Raras vezes lhe respondo. Hoje contou-me que se baldou a uma aula para poder estar com um amigo. A isto respondi-lhe: habitua-te à ideia de que esse amigo talvez nunca falte a nada para poder estar contigo. Ficou triste e limitou-se a prometer-me que nunca mais se baldava. Voltei a não reagir. O Vítor insiste em gostar de mim. Eu insisto em não lhe passar cartão. A avó dele, a minha mãe, atormenta-me com a frase "Dá Deus Nozes a Quem Não Tem Dentes", coitadinho do meu neto!
O filho que tenho, com oito anos de vida, lembrou-se agora que podíamos dar a volta ao mundo. Tentou seduzir-me com o trepidar do comboio, com o ondear do barco, com peripécias de aeroporto. Tentou convencer-me a abraçar um monge, a aprender crioulo, a dançar o samba, o tango e a acabar na Disneylandia. Disse-lhe que não. Não quero, não me apetece... não sei brincar.

Catarina Miranda

Fuga ao Tsunami com a Devida Antecedência II

Meia hora mais tarde a vegetação já escondeu o ancoradouro definitivamente, deixando-o fora do espírito. Um filme faria melhor justiça a esta aproximação sob a última luz do dia, o Sol a pôr-se por detrás do vulto negro da mesquita, o barco chegando-se à aldeia de pescadores encostada a um dos ilhéus forrado de vegetação, erguendo-se acima das insalubres águas sobre estacas de madeira pouco mais altas que um homem – como farão com as marés vivas?
Vê-se grande número de restaurantes per capita, mas não deve ser oferta excessiva na época alta, quando outros turistas at(r)acam nos ancoradouros privados, vindos aos magotes de Phuket. Enquanto não chegam, pode-se caminhar em paz pelo entardecer das ruas, por corredores de chão tabuado nem sempre completo, aqui apodrecido, além caído, obrigando a pisar bem e ao de leve. Os fiéis acedem ao chamamento, convergindo para o templo através de uma luz que é líquida como se o mar fosse atmosfera, os vultos brancos dos capuzes a parecerem aparições.
As paredes das casas não são transparentes, mas as portas e as janelas estão abertas como em Malaca, deixando ver o desalinho, a roupa suja no chão, a televisão ligada ao abandono, mulheres que não foram à oração do crepúsculo preparando o jantar. Uma rapariga rechonchuda toma banho vestida, despejando o jarro, a gravidade a levar-lhe a água suja para a ria, e o viajante não sabe se pode olhar. O mijo que o miúdo traquina verte com alegria cai também nesta grande cloaca que passa debaixo do povoado ao sabor das marés.
O jantar é peixe, não se esperaria outra coisa na aldeia de pescadores, mas ao passar na cozinha o viajante encontra a embalagem onde veio congelado, não engana o rótulo em inglês para exportação, talvez os pescadores prefiram passar o dia a treinar para a prova de remo que na faina que lhes dá nome. Vai lá outra vez, deves ter visto mal - e o viajante aproxima-se novamente do caixote de lixo e abre bem os olhos e chega-lhe a mão apalpando o cartão e corre a indignar-se junto dos holandeses que dormem no quarto ao lado, mas eles permanecem indiferentes e precisam de ser abanados e dão vontade de perguntar para que é que vieram aos trópicos.
Paulo B.

4/05/2005

A Blogosfera


Um dos grandes méritos dos blogues – julgo que ainda ninguém chamou a atenção para o fenómeno – é pôr a nu a infinita variedade da estupidez humana. Há a escrita, cuja qualidade tornaria muito difícil a aprovação de um aluno da escola primária. Há a ignorância enciclopédica, disfarçada com transcrições de livros e de artigos de revistas (de preferência estrangeiras). Há a quinquilharia da erudição, os que colam (com aspas ou sem aspas) excertos dos livros que andam a ler. Há a tagarelice inesgotável, sob a forma de comentários onde abundam as vulgaridades correntes sobre discos, livros, filmes, etc. Há os bajuladores, que se empoleiram através do elogio mas, quando contrariados, e sentindo-se incapazes de absorver a crítica, vociferam como carroceiros (a menor objecção enche-os de cólera, mostrando assim de que matéria são feitos). Há os rodriguinhos das amizades (sintoma mais conhecido por amiguismo), há os que têm alma de lacaio, há os que pensam sem pensamentos, há a gravidade saloia típica dos círculos intelectuais. Perguntam-me: por que é que os blogues haveriam de ser diferentes? Também os blogues são um retrato do nosso país, também eles legarão à posteridade os costumes e os hábitos da sociedade do nosso tempo: a ausência de pensamento rijo (tal como ele existe, por exemplo, na imprensa britânica), a incapacidade de distinguir amizade e opinião intelectual... a lista é infinita e monótona.
Alguns casos concretos. Um blogue como “A Praia” é bem representativo dos tiques e manias atrás enunciados. Mal escrito, com ideias em segunda, terceiríssima mão (vejam-se os textos pastelosos sobre Woody Allen), cópias de um lirismo de instrução primária (por exemplo, alguns poemas publicados no início do blogue), citações avulso de revistas (destaque para «The Economist») e de letras de música brasileira (uma dica maldosa para o João Pedro, que tanto apreciava “A Praia”: para quando um Monólogo do Brasileiro?). Continuar a ler «A Praia» faz-me lembrar uns amigos meus que há anos, no liceu, tentaram fazer andar um motor gripado. “A Praia”, no fundo, é isso: um motor gripado.
Outro exemplo é o blogue «Fora do Mundo»: não há quem denuncie, por exemplo, a gravidade saloia de assinalar um ano de blogue afirmando: “continua e continuará a ser um blogue sem agenda”. Estas coisas fazem-me cócegas. Porque, enfim, a ser isso verdade é coisa que se anuncie? Um indivíduo ou tem agenda ou não tem, ponto final. Agora vir berrá-lo aos quatro ventos? Ó faz favor.
A Bomba Inteligente é outro blogue sobreavaliado. A escrita que ali se pratica está ao nível da minha filha de 8 anos. A Carla Quevedo serve-se do blogue para estabelecer contactos (está no seu pleno direito civil), criar uma rede de cortesãos e alimentar uma nuvem de adoradores. Na Bomba não respira uma única ideia inteligente. Há dias, ou semanas, num texto de erudição bacoca, a Bomba discutia a questão do gosto. O que para ali foi, David Hume para aqui, Kant para acolá. A certa altura defende: “os gostos não nos definem”. É este um bom exemplo da ignorância enciclopédica que acima fiz menção. A Bomba cita abundantemente em inglês e confunde tudo, apenas com o objectivo de lançar poeira de erudição nos olhos dos mais ingénuos. Os gostos não nos definem? Não será antes o caso de os nossos gostos nos revelarem e nos traírem muito mais do que os nossos juízos (por exemplo os juízos políticos)? Ou muito me engano ou o nosso amor-próprio sofre muito mais quando os nossos gostos são condenados do que quando se trata das nossas opiniões. Por que é que acha que as pessoas, em geral, sofrem mais, muito mais, quando lhes dizem que têm mau gosto? Para não fazer mais figuras tristes, aconselho à Bomba um curso intensivo de filosofia...
Por fim, o Esplanar. Blogue que inicialmente parecia apostar na diversidade e até em algum antagonismo de opiniões, tem vindo a torna-se ultimamente num armazém de textos já publicados noutros sítios ou ainda numa loja onde se publicitam as actividades extra-blogue. Não queria terminar sem referir alguns blogues que me cativam a leitura. Aquele que de imediato me vem à cabeça é o «Barnabé», não todo o Barnabé, apenas um dos seus elementos: o Rui Tavares. Em boa verdade, um só texto do Rui Tavares vale por quase toda a blogosfera. Estão bem escritos, têm estilo, têm ironia, são inteligentes, uma pessoa aprende ali qualquer coisa, puxa pela cabeça. O Rodrigo Moita de Deus e o Luciano Amaral de «O Acidental» são também casos de blogueres espirituosos e mordentes cuja leitura, sempre que posso, vou actualizando. Em «a causa foi modificada» ou nos “galarzas” já tenho encontrado textos inspirados, despretensiosos, numa linguagem pitoresca que põe num chinelo muitos escrevedores com a mania da literatura. A qualidade e a escrita podem ser questionáveis mas, pelo menos, entretêm. Haverá com certeza outros blogues de leitura obrigatória (lembro-me de um blogue curiosíssimo chamado “Médico Explica Medicina a Intelectuais”, infelizmente encerrado). O mesmo, porém, se pode dizer do «Em Busca do Tempo Perdido» ou do «Quarteto de Alexandria» e eu ainda não os li. E então?

António Vergara

As Namoradas dos Surfistas

Contra mim escrevo o que se segue:

Aos 21 anos, quando ia à praia de Carcavelos, da Costa, da Ericeira, de Sagres, de Santa Cruz, de Peniche e o “circuito a quatro”, a areia escaldante estava forrada de raparigas lindíssimas que olhavam orgulhosas para os seus namorados a surfarem as ondas. Riam-se muito, comentavam-nos, deliciavam-se com a água que lhes escorria dos cabelos e que eles sacudiam à “cachorrinho encharcado”. Às vezes zangavam-se umas com as outras, competiam pela atenção dos rapazes que, na verdade, pouco lhes ligavam. Eles vibravam com o tubo, irritavam-se com a ultrapassagem à cão do amigo, ficavam “horas” à espera do próximo set. Raramente vinham até à areia e elas nunca iam mergulhar. Nunca. Ficavam a vê-los passar. A situação é anacrónica porque hoje fala-se de uma tal de Sophia Mulanovich. A peruana foi campeã do World Championship Tour Feminino e faz questão de ir revalidando o título. Derrotou Rochelle Ballard, do Hawai e líder de circuito. Derrotou-a mas ouvi dizer que são inseparáveis.
Para que não me fique por textinhos enigmáticos cheios de recadinhos devo esclarecer o propósito desta referência desportiva: é que infelizmente para todas nós a Sophia Mulanovich ainda não chegou à blogosfera.
Patrícia H.

A Bolsa Adormecida

Há poucas coisas mais chatas que o noticiário da Bolsa. Assim como os correspondentes televisivos em Bruxelas são sempre de meia-idade – será que o assunto requer alguém mais maduro? – o repórter financeiro aparece-nos invariavelmente um tipo jovem, bem lavado, melhor penteado, boa gravata, camisa branca impecável mas sem casaco, com o ar de quem daí a pouco também ele irá arregaçar as mangas e deitar as mãos ao teclado, processando swaps, repos e forwards. O pivot pergunta-lhe sobre as últimas novidades e ele informa que Lisboa variou 0,042% na sequência da abertura em queda de Tóquio, manhã após manhã. Na verdade, as cócegas de umas décimas não interessam ao grande público, que só vibra quando, tal como nos acidentes, ocorrem mortes, ou seja, quedas superiores aí a uns 3%. Por outro lado, aqueles que têm dinheiro lá metido acompanham tudo no ecrã do computador, provavelmente até inseriram algum algoritmo que lhes vende automaticamente as acções quando o prejuízo já vai grande.
Paulo B.

4/04/2005

1-0



A primeira vez que te vi, não te vi. Olhei, mas não te vi. Sei agora, olhando para trás, que tu me viste bem.
Durante muitos dias ignorei a tua presença, ainda que ela fosse constante. Jantares, saídas, passeios... tu estavas sempre lá. A observar-me, a aguardar-me. Esperavas simplesmente que os meus olhos que olham se fechassem e os meus outros olhos, os da alma, os que vêem, te sentissem.
Quando nos cruzámos, pensei: "és feio, balofo, nada interessante. A tua presença quase me incomoda". O tempo passou e a tua presença ganhou força. Eu cresci, sempre contigo a meu lado, numa de amizade.
Na noite de passagem de ano consegui finalmente ver. Tu tiveste de ir, por imposições profissionais, para longe. Num ambiente festivo, no meio dos nossos amigos, tu não estavas. Muito álcool, bifanas, gargalhadas, frango assado, pão de Mafra e o meu pensamento estava somente em ti.
Foi nessa altura que a minha existência se abriu para ti, rendendo-se às evidências: tu és especial, para mim... Olhei para ti na minha mente e aí sim, vi-te. E tudo mudou.
No dia seguinte, vieste ter comigo, solícito como sempre, achando que eu ainda não te via. Para ti, sei-o, foi um dia como outro qualquer na minha companhia. Para mim, foi um dia de descobertas e exploração.
A noite veio e decidimos então deitar-nos juntos na cama para assistir a um filme, como fizéramos outras tantas vezes. Mas esta noite ia ser diferente, porque já podia ver. Perante o teu espanto, entreguei-me a ti. Continuava cega. Soube depois que foste tu que te entregaste a mim.
Hoje, acredito que ambos tivemos uma vivência necessária ao longo de um estranho caminho para, nesta altura das nossas vidas, nos encontrarmos e nos completarmos.

Mas não foi fácil. Deus é um brincalhão. Sabendo quão mundana sou, amante das coisas belas, de homens belos e vigorosos, vaidosa, cheia de mim, colocou a minha alma gémea num corpo que Ele sabia que não iria olhar duas vezes. Mas eu olhei e vi. Desta vez, não me ganhasTe.


Ana Ataíde

Melanzane




Tinha eu para aí doze anos, a manhã toda a jogar a bola, uma fome de morrer, a subir as escadas de três em três degraus, mortinho por almoçar. A minha mãe e a minha avó com o almoço pronto, uma gritaria: “Vai lavar as mãos!, “já lavei”, “mentiroso”, “pronto, já está”.
A mesa estava repleta de umas rodelas amarelas, que deduzi ser pescada frita. Sempre gostei muito de peixe. A minha maior façanha foi aos onze anos: num almoço de família ingeri vinte carapaus grelhados. Até parece que estou a ver o meu tio, todo orgulhoso, bigode empinado, a bater-me nas costas e a dizer: “Assim é que é, rapaz, assim vais crescer”. Depois comi um melão. Foi um dia inesquecível. O meu tio contava feitos grandiosos de antepassados na sua luta com o bicho peixe. Havia um com que me identificava particulamente, um pescador lendário nas lotas de Peniche que fritava imediatamente os peixes que pescava. Para onde quer que fosse levava sempre consigo um pequeno fogão a gás.
Mas naquele dia, não era peixe o que estava reservado para mim. Era beringela frita. “Que coisa é esta, mãe?”. Parece que a minha avó se tinha lembrado de uma receita antiga da avó dela. Decidi declarar guerra à beringela e não comer. Levei um estalo. Clube do peixe, zero, beringela, um.
Entretanto cresci, adquiri estudos e fui viver para Itália, uma terra sofisticada. Na altura eu não sabia, mas nesse país a beringela é muito apreciada. Os nativos falavam-me das suas propriedades gustativas, mas eu recusava-me a ceder. Agora podia vingar-me. A pouco e pouco fui-me reconciliando com a beringela, a melanzane. Primeiro foram os meus cozinheiros. Várias indivíduos desamparados, que abriguei lá em casa por amor cristão, já sabiam que para terem tecto transformavam-se nos meus mordomos pessoais. Primeiro foi o Rui. Melanzane recheada era a sua especialidade. Depois o Luís. Melanzane grilliate. Depois foi o Atef. Tagine de melanzane com especiarias do mercado de Alexandria. E de seguida preparava-me o narguilé. Mas a revelação do carácter divino da beringela só chegou com a visão da Anna, judia-romana de olhos verdes, a cozinhar farfalle com melanzane.
Agora mudei para Madrid. A Anna casou com um grego com pêlos no nariz. “Vai via, vai in Spagna e vai presto”. A comida cola-se ao céu da boca. Já comecei a comer atum em lata. Só que eu já não sou deste clube. Eu quero a minha melanzane. Alguém viu por aí os meus mordomos?

Tiago Fernandes

Fuga ao Tsunami com a Devida Antecedência I

Depois das dezenas, centenas de rochedos forrados de vegetação, o asfalto da estrada torna-se liso de repente, mais intenso o branco das marcações que separa os veículos que vêm dos que vão, e as placas que anunciam Phan Gna Bay, que apontam para bungalows e resorts e a relva aparada no cruzamento, confirmam que a área é turística, ainda que não de massas. Com o início da cidade surgem edifícios baixos, incaracterísticos como sempre neste sul, desfilando à passagem do autocarro, cinzentos, brancos, amarelos, e letreiros berrantes, intermináveis ao longo de quilómetros que o incauto poderia tomar por metrópole não visse detrás da estrada-avenida apenas uma segunda rua e logo a montanha sobrecarregada de verde, debaixo do céu cinzento que ameaça mar e chuva.
Hotéis, pensões, casas, quartos, excursões, mais uma vez parece haver excessiva oferta para tão pouco forasteiro, a não ser que toda a gente esteja a caminho da festa da Lua Cheia no Golfo da Tailândia, do outro lado. A cada mês reúnem-se lá dez mil backpackers para dançar reggae, house e techno, dez mil backpackers só neste país a levarem vida de verdadeiro viajante, visitando cidades onde nunca estiveste nem pensas ir, permanecendo semanas em lugares onde apenas passaste algumas horas. Hão-de ficar no Oriente e tu em breve voltas para o escritório, por isso aproveita ao máximo este mar de Andaman, ao menos estás protegido dos tufões do Mar da China, nesta amenidade de clima só é preciso fato de banho, uma camisola de manga curta e a máquina fotográfica para o passeio de barco de dois dias, está tudo programado e a única rebeldia possível é esquecer o protector solar e o repelente de insectos.
O transporte até à baía é em carrinha nova, ar condicionado, estofos de couro, o condutor já fez o percurso milhares de vezes e está claramente farto de estrangeiros, não quer conversar. À beira do braço de ria a viagem parece compôr-se, comprido como um rio, largo como um lago, reflectindo a ausência de cor das nuvens, as montanhas de verde sobrecarregadas em anfiteatro ao fundo, a norte, dando a ouvir com mais força a ausência, enquanto um ancoradouro diminuto aguarda a atracagem dos long tail boats. O barqueiro apresenta-se com o grande chapéu de palha como manda a Ásia, e aí vão o viajante e duas passageiras carregadas de comida em direcção ao sul, cada metro a valer o seu comprimento em ouro porque afasta da civilização, porque conduz a um canto secundário da Tailândia. Pressente-se a ilha de Sumatra lá ao fundo, muito longe, do outro lado deste Mediterrâneo oriental, enquanto nas margens da ria onde ninguém vive se estende a floresta de mangue, pequenas árvores cujas raízes submarinas assentam no lodo salgado e na maré baixa se erguem agressivas acima das águas insalubres.
Paulo B.

Não se deve contrariar a natureza

Não gosto do mar. O mar é de uma banalidade insuportável. Por isso não gosto de água. Desde os meus 14 anos que deixei de beber água.

Hoje dormi mal. Estive estranhamente consciente do meu próprio ressonar, o que me impediu de ter um sono profundo e reparador. No entanto, quem olhasse para mim veria um ser fossilizado, como os crocodilos quando dormem.

O que me une aos outros é o hábito de mentir. O hábito de dissimular a amizade.

O amor é uma emoção demasiado violenta para mim. Ser amado é como ter um vizinho violento com uma espingarda carregada na casa ao lado.

António Vergara

Catatonia



“Nem festas nem conversas, deixem-me estar sentada numa cadeira”. Foi assim que encontrei, logo pela manhã, a velhota algarvia: sentada numa cadeira. Em frente tinha a ria, as garças, as dunas e a praia. Mas e daí? Os olhos nem se mexiam, cheguei a pensar que era cega, não via o chão, não via em frente, não via ao alto. Ainda me passou pela cabeça “mmmmm, aqui não se passa nada... é bem capaz de ter enjoado o raio da ria, o raio das garças e o raio da praia”. Já era bastante tarde quando regressei e a velhota estava precisamente na mesma posição em que eu a tinha deixado. Comecei a ficar incomodada, cheguei ao pé dela, passei-lhe a mão pelos olhos e chamei-a: “minha senhora!”. Era uma estátua. Já nem eu conseguia apreciar a ria, as garças e a praia. “Deve ter sido alguma partida que a pôs K.O. mas deixa estar que a D. Maria Antonieta já me esclarece”. Era a vizinha da velhota há coisa de nove anos. Professora de liceu reformada, tinha-se retirado para aquele fim do mundo para sossegar, o costume. “Ouça lá, o que é que aconteceu à velhota aqui de baixo que nem sequer enxota as moscas do braço?”. Desdramatizou com um aceno de cabeça e disse-me que era uma perda de vontade. “Vontade de quê?”.
"Vontade! Perdeu-a, eu é que a sento lá fora para ver se acorda, sei lá esteve casada 35 anos, o marido morreu-lhe há dez mas ela parou por ali, não percebo, o meu morreu há menos e eu reagi, há outras que morrem de desgosto ou andam para aí a chorar mas ela apardalou-se. Até enerva. Noutro dia houve aí um funeral de um miúdo que tinha sido atropelado, isto estava cheio de gente, tudo de preto nem se conseguia ver o chão, só sapatos, barulho e choros. Pensa que lhe deu abalo? Está para ali ensimesmada nem que houvesse um bombardeamento. Sim senhora, parece que o marido a fez feliz... e ela a ele, que até perdeu o paladar, se lhe soubesse a peixe dizia que era carne só para a mulher ficar contente. Ai de alguém da família que se levantasse da mesa antes de ela acabar de fumar o cigarro. Iam passear, chegavam às tantas, nem se lembravam dos filhos. Eles ainda a visitam mas ela parece que nem respira. Julga que tem vontade de morrer? Nada, antes fosse. A última vez que falou foi para pedir a cadeira. É deixá-la.”
Decidi não voltar a olhar para a velhota mas não me controlei. Aproximei-me, peguei-lhe na mão e levantei-lhe o braço. Fiquei ali à vontade uma meia hora e ela nunca o baixou. Não tinha vontade de deixar cair o braço.

Catarina Miranda

4/03/2005

Eles estão de volta





Hoje em dia é muito difícil encontrar um par de ténis decentes. Felizmente, os All Star estão de volta. Já os tive azuis, amarelos e brancos (vários pares). Hoje tenho dois pares, uns encarnados e outros brancos (outra vez). E até por duas vezes ofereci estes belos ténis a uma namorada que tinha. Amarelos e azuis.
Nos dias de hoje já não há ténis. Qualquer par de Nike ou Adidas tem mais de quatro cores; e o que por aí anda nos pés de muita gente são híbridos artísticos, entre o sapatinho modernaço e a pantufa árabe. Mas uns All-Star são uma coisa antiga e veneranda. São simples mas orgulhosos. Sem vergonha. Dão para usar no trabalho, para fazer desporto e para sair a noite.
Até para jantar com uma miúda servem. Nunca me arrependi de os calçar, parecia até que os ouvia, lá em baixo, a dizerem: "Tiago, está tudo seguro, connosco aqui nunca vais cair". Verdadeiros amigos!
Uma vez fui comprar sapatos com uma namorada e não gostei de nada do que vi. Era tudo muito elaborado, muito amaricado. Ela exasperou-se comigo: "não gostas de nada, não percebes as novas tendências". Vi logo que não era para mim.

Tiago Fernandes

4/02/2005

Concurso Não Sei Brincar*




Atire cá para fora tudo o que não sabe. Não tenha vergonha. Liberte a sua ignorância.

Por exemplo:

Não Sei Fazer Arroz. Não Sei Dizer Presépio em Inglês. Não Sei Quem é o Meu Pai. Não Sei Comer com Pauzinhos. Não Sei Qual é a Tua. Não Sei Tocar Oboé. Não Sei Falar Crioulo. Não Sei Qual é a Capital da Quirguízia. Não Sei o Pretérito Mais-que-Perfeito do Verbo Aprazer. Não Sei Converter Jardas em Metros. Não Sei o Que Quer Dizer Lósbia. Não Sei Comer Percebes. Não Sei o Preço do Sal. Não Sei Quem Escreveu O Gigante Verde. Não Sei Quem é o Ramón Menéndez Pidal. Não Sei Que Horas São. Não Sei o Nome do Sétimo Presidente da República. Não Sei Quem Matou Amílcar Cabral. Não Sei Onde é Que Fica a Tíbia. Não Sei a Que Horas Nasci. Não Sei a Receita de Bife Picado Westmoreland. Não Sei o Que é Bife Picado Westmoreland. Não Sei Conduzir um Eléctrico. Não Sei para Que é Que Servem as Instalações.
Não Sei Brincar.


Ana Ataíde, António Vergara, Catarina Miranda, João Pedro George e Patrícia H.


*Os 7 melhores comentários serão publicados aqui e a Bold.

Sabe que Horas são?!

Crítica Bulldozer: a resposta do Rui

No blog da Periférica

João Pedro George

Hora de Almoço

4/01/2005

Monólogo da Vizinha

Quem é que anda a deitar água cá para baixo?! Que pouca vergonha é esta?! Com quem é que esta gente anda a brincar?! Gente reles e ordinária que vem para cá. Coisa mais ordinária não há ao cimo da Terra. Só vêm para cá morar é porcos e badalhocos. Só disto é que vem para cá. Porcos e ordinários. Só gente ordinária, que não tem outro nome. Têm mesmo a cara daquilo que são! Já a semana passada foi a mesma coisa. Isto é uma falta de respeito. Estão a deitar-me a casa abaixo com água. Tenho a cozinha alagada. É um cheiro aqui que não se pode. EU QUERO SABER QUEM É QUE ANDA A DEITAR ÁGUA.
É a cegonha lá de cima, essa lambisgóia, essa imigrante. Trazia a netinha para roubar e partir tudo. Eu já te chamo a polícia. O que é que tu julgas que andas aqui a fazer?! Sua porcalhona... vai desmanchar a tua casa. Eu a limpar e ela a sujar, eu a limpar e ela a sujar. Era o que faltava! Mandarem aqui na casa dos outros. Era o que tu querias... entrar cá dentro. Ela quanto mais manda abaixo mais está a pagar. Quando se fizer as contas de tudo aquilo que partiram e estragaram... estão enganados... estão estão. Com quem é que ela anda a brincar?! Eu mando cá vir um homem para arranjar isto e depois mando-lhe a conta. Toda a vida tem sido aqui uma pouca vergonha... toda a vida. Mas ela está enganada. Vou lá bater à porta... O que é que foi??? Estás a mandar calar quem??? Daqui a um bocado mandas-me calar mas é na polícia. Eu mando-te a polícia a casa. A polícia está a par de tudo... a polícia já está a par de tudo. Começa a fazer muitas e eu chamo-te aqui a polícia. Só vêm para aqui é bandidos e assassinos. ASSASSINOS!!!... Deixa estar que daqui a um bocado... Deixa estar, deixa estar... O meu filho já aí vem... ele está a tratar de uns assuntos para tratar do teu. De hoje já não passa. Logo à noite já estás morta... tu e a tua filha... Eu não te digo mais nada. A tua sorte é estar a chover. Se não estivesse a chover já te dizia o que é que eu fazia. Mas logo não é tarde. Se eu pudesse sair de casa... eu agarrava a gaja... ou ela ou quem lhe ensina... És atrevida, não és?! Só cá vem para fazer mal. Tudo que vem cá é só para fazer mal. Mas afinal de contas que monstro mora aí, Santíssimo Sacramento??? Esta gente é do pior... Vai fazer pouco de Deus! Vai brincar com Deus, não comigo! Brinca com Deus, não comigo! Quando quiseres gozar vai gozar com os teus... não comigo. Olha que eu não sou de paródias! Eu nunca vi coisa mais reles, mais ordinária que aqui. Tu estás enganada! Olha que estás enganada! Eu já falei com a polícia. Eu estou a evitar pôr aqui a polícia à porta. Eu quero lá saber da filha dela ou da neta dela. Tem lá uma princesa... a princesa Margarida... Pego num pau e escavaco-a toda... Sabes para onde é que estás a deitar a água??! Eu a apanhá-la e ela a deitá-la cá para baixo! Tenho a casa toda alagada. Olha que isto. Não tem respeito por ninguém. Toda a vida tem sido uma pouca vergonha. Toda a vida, toda a vida... Daqui a um bocado já te digo o que é que eu vou fazer...

João Pedro George

A Piscina

Jesus Lava Mais Branco

O Marketing? Foi Jesus que o começou há dois mil anos.

Ana Ataíde
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