3/30/2005

Zimbabwe



O meu cabelo estava nojento. Percorri 140 kilómetros até chegar a Mutoko. O elástico que o prendia estava podre e pela primeira vez invejei a carapinha dos africanos. Seca e volumosa, indiferente à humidade e ao calor. Só apetecia deitar-me para o chão mas os milhares de pessoas que iam ouvir o presidente não me davam espaço para o fazer.
Nisto o homem chegou. Vinha dentro de um jipe com vidros fumados, um Toyota, seguido por uma pick up com militares. Está há 25 anos no poder, ainda lhe faltam três para acabar o mandato e é precisamente isso que lhe está na cara, no andar e na roupa. Uma camisa vermelha e branca com o próprio retrato estampado. À volta dele uma comitiva vestida de igual mas a preto e branco. É difícil descrever aquele bigode. Um tufo longitudinal que ocupa apenas a covinha acima do lábio superior. Robert Mugabe começa a falar e toda a gente, toda, eu também, se senta no chão e se cala.
“Este país não vai ficar nas mãos de marionetas. Nenhuma marioneta há-de governar o Zimbabwe. Nunca. O povo do Zimbabwe é uma força revolucionária e não há nada a fazer para modificar isso. Estão unidos por uma liderança, unidos por um partido.”
Levantaram-se todos, eu também, bateram-lhe palmas furiosamente e gritaram-lhe o nome até à exaustão. Olhei para o lado, vi uma mulher e um homem a acenarem um cartaz – “The only Blair that I know is a toilet”. Estava atarantada, resolvi abrir o jornal que tinha comprado em Harare. A campanha eleitoral do partido do poder e de Mugabe tinha assumido a fórmula anti-Blair. Ser contra os ingleses, a antiga potência colonial, significaria para o povo, “ter de volta a terra, acabar com o fecho racista das fábricas, acabar com as sanções da União Europeia e dos Estados Unidos e finalmente acabar com a oposição... ao serviço dos interesses britânicos e norte-americanos”.
O discurso acabou. Um homem puxou-me pela mão e mandou-me dançar. Foi nessa altura que desmaiei. Só voltei a acordar no quarto de hotel, ar condicionado, e lembrei-me do que tinha lido em Lisboa sobre o ditador Robert Mugabe, os castigos da comunidade internacional.
Já ouvi dizer que o partido do homem volta a ganhar. Não faço ideia. Fiquei com a sensação de que, em Mutoko, lhe bati palmas e lhe gritei o nome. Naaa... devo ter sonhado, eu a aplaudir o facínora, a gritar... era o que faltava. Preciso de lavar a cabeça e de comprar pastilhas para a garganta.

Catarina Miranda
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