3/29/2005

A Minha Mulher

Tenho uma duna em frente à porta de casa. Foi o vento que a trouxe e é o vento que a faz entrar, todos os dias, pelas frestas das janelas. Varrer a casa é a primeira coisa que faço quando acordo e a última antes de me deitar. A duna é feita de areia preta e impede-me o acesso ao carro. Incomoda-me e não me dá descanso. Só posso contar com a ajuda da Eufémia aos sábados e passo a semana a ansiar por esse dia. Depois de varrer o chão entra no meu quarto sem eu dar por isso, larga o tabuleiro com o pequeno almoço aos pés da cama e volta para a cozinha. Duas horas mais tarde vou ter com ela à sala e assistimos à novela, episódio de sexta-feira que lhe gravo religiosamente porque ela trabalha àquela hora. Comentamos os dramas, as alegrias e os penteados das personagens. Sempre que fecho os olhos e levo as mãos ao pescoço ela pergunta-me se estou bem, se preciso de uma massagem. Costumava negar-lhe o favor mas hoje tive a ousadia de aceitar. Pressionou-me os dedos na nuca e comecei a escorregar paulatinamente pelo sofá até ficar deitada de costas para ela. Continuou, suave mas com firmeza, a passar-me as mãos pelas costas. O cérebro ficou dormente mas o coração foi atacado por uma taquicardia. Devo ter ficado com pele de galinha porque ela levantou-se para ir buscar um cobertor. Quando chegou eu já estava deitada de barriga para cima. Tapou-me carinhosamente sem nunca alterar a expressão. Ajoelhou-se e ficou com a cara em frente à minha: “dona Patrícia, a senhora é um anjo que me apareceu na vida, gosto de si como se gosta de uma irmã”. Beijou-me os lábios. Um beijo longo e interminável a que eu não soube responder porque estou longe de ser um anjo e não sou a irmã dela. Senti culpa pelo prazer e pelo desejo que me provocava. No sábado não consegui beijar a Eufémia.

Patrícia H.
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