3/28/2005

Marxismos Imaginários


Da missa para casa, treino boxe e leio Marx. Ontem diziam-me: deves estar cultíssimo e… chato. Concordei facilmente, porque muitas vezes me olho assim ao espelho, quando saio do banho às seis da manhã, duas horas antes de começarem as aulas. Depois desço à rua e bebo um café. Hoje recebi o subsídio de férias. Vou comprar um carro em segunda mão. Basta um reforço no empréstimo do banco e parto para Marrocos. No fim do ano ou em Fevereiro. Tanto faz. Os olhos charrados do Pedro dizem que sim, que vamos a Marrocos, não tenhas dúvidas. E começou a contar histórias intermináveis sobre viagens, ao deserto, ao oásis, às praias do Norte de África. Eu lembrei-me da minha estadia em Oslo, no Verão passado. Sozinho. Um mês. Como é que conseguiste? perguntou-me. Sei lá. Apeteceu-me ser diferente. Sempre adorei praia. Sempre quis viver perto de uma praia. Quando for mais velho vou viver para a Costa da Caparica. Ali perto da Cova do Vapor, naquelas vivendas magníficas perto da Trafaria, onde o Tejo acaba e o mar começa. Oslo foi só para contrariar. Obrigar-me a conhecer o que o meu feitio e gosto nunca me permitiriam conhecer. Marrocos, Oslo, Costa da Caparica. E Marx.
Muito bem, hoje vamos falar um pouco sobre Marx. Comecei por uma pequena introdução biográfica. Queria contornar os aspectos económicos. Porque não percebo e não gosto. Mas só para contrariar, tive que estudar também isso. Daí que a aula se tenha prolongado para lá da hora. Começaram os protestos. Temos uma aula a seguir. A porta abriu-se e apareceu o professor das 11. Vou já. E fui. Algumas alunas fizeram-me ainda uma perguntas sobre o trabalho do final do semestre. Um dia ainda vais acabar por casar com uma aluna. Acredito nisso, quando me dizem. Porque nunca saio de casa, excepto para ir às aulas. E para ir a Marrocos. E a Oslo. E à Costa, quando me decidir a vender esta casa. Decidir não, porque só daqui a três anos é que posso, segundo dizem no banco.
Estou agora à espera de um telefonema. Aproveito para escrever um pouco de poesia. Nunca percebi esta minha inclinação. Escrevo poesia mas não gosto, nem quero que me leiam. Assim que escrevo um poema vai para o caixote do lixo. Sei que tenho talento mas não gosto. A dança da lua. Um músico irlandês chamou-lhe isso, à poesia que vai para o caixote do lixo. Estou à espera no gabinete da faculdade. Enquanto espero batem à porta. Entre. Mais uma aluna. Não a conheço. Nunca foi às aulas, talvez uma trabalhadora estudante. Sim, porque deve ter uns trinta e tal. Eu sou mais novo. Nem trinta tenho. Sim? Desculpe incomodá-lo, professor, mas queria fazer-lhe uma entrevista exploratória para o meu trabalho de final de curso. Está a fazer a minha cadeira? Sim, estou, mas não tenho podido assistir às aulas. Não perguntei porquê, embora me apetecesse. Porque era uma mulher que eu queria foder, embora só há dois minutos a conheça. É sobre o quê, o trabalho? Viagens… respondeu-me. Bom, talvez não tenha batido à porta certa. Não sou grande viajante… Mas disseram-me que vai para Marrocos. Como é que sabe? Disse-me o Pedro… Conhece o Pedro? Fui ontem para a cama com ele. Se calhar também quer vir até Marrocos? Sim, respondeu-me, mas sem o Pedro. Só nós os dois. Porquê, quer ter uma boa nota na minha cadeira? Talvez.
António Vergara
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