3/29/2005

Marit

É por esta altura do ano que os Alpes italianos estão no auge. O inverno já não está rigoroso e a primavera anuncia-se devagar. A obrigação de esquiar é menos forte e as pessoas preferem andar pelos bares, a beber café e grappa, ou pelas ruas a acolher o sol quente na cara e a ver quem passa. Os dias correm animados e coloridos, como um grande recreio.
Quando cheguei, o Gabriel já lá estava há uns dias. Dei com ele num bar, o Mezzogiorno, metido num grupo heterogéneo e muito falador. Italianos, ingleses, alemães, dinamarqueses, espanhóis e um preto do Burkina-Faso.
"Que malta é esta?.
"São uns estudantes de doutoramento de Oxford que vieram pràqui de férias. Conheci-os aí à noite e desde então colei-me. Há umas miúdas giras".
"Tou a ver".
"Estou à tua espera há três dias, tinha que falar com alguém. E estou a ver se papo esta alemã aqui do lado".
Sentei-me e pedi um café americano. Demora mais tempo a beber. O Gabriel estava muito animado e apresentou-me as duas tipas que estavam perto dele. A Marit, dinamarquesa, cabelos ruivos e olhos verdes, sweater decotada até ao início do peito, a pele vermelha do sol, maneiras tímidas. A Utte, alemã e, como não podia deixar de ser, mandona. Cabelos castanhos curtos, olhos azuis, um pouco chubby. Lambia os lábios secos do sol.
Utte: "O teu amigo disse-me que estás a escrever um livro. Mesmo agora discutíamos a última polémica entre Ricouer e Habermas sobre o sentido da crítica. Agora em Oxford, finalmente, somos todos continentais".
"Deve ser do alargamento", respondi.
A Marit riu-se e perguntou-me o que estava um rapaz português a fazer ali. Demorei a beber o café e deixei o Gabriel responder. "Estamos a tentar desenvolver o ski em Portugal. Há um sítio, a Serra da Estrela, que está pouco aproveitado. Queremos ser os primeiros". Sempre admirei a lata dele, mas esta foi do melhor.
"Vamos todos agora para as pistas negras, que vão fechar amanhã por causa da neve solta. Queres vir?", perguntou-me a Marit. "Erh ... sim". O Gabriel, já esquecido de mim, de ombro colado à alemã, ouvia-a, deleitado, a descrever a vida em Oxford.
Saímos juntos. Lá fora uma multidão de putos corria para todos os lados, uma soma de sons como os pássaros ao amanhecer.

Luis Serpa
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