3/30/2005

Elogio da Sombra



O Japão, ao contrário do Ocidente, procura o belo no escuro, nas sombras e na claridade ténue e precária. Por exemplo, enquanto os ocidentais gostam do brilho dos utensílios de prata – daí os polirem tanto – os orientais preferem a patine que escurece a superfície do metal, que lhe confere aquele reflexo maculado pela passagem do tempo. Este culto à obscuridade, à calma transmitida pela sombra, é visível também no agrado que a luz vacilante das velas provoca no espírito dos japoneses. A chama das velas, ao contrário da luz eléctrica, pacifica o coração do ser humano e incita-o ao sonho. Ao contrário da lâmpada, a chama agita-se e ao agitar-se revela o pulsar da atmosfera e a ressonância da alma. Na jade, esses blocos de pedra “estranhamente enevoados, que aprisionam nas profundezas da sua massa vagas luzes fugitivas e indolentes, como se neles se tivesse coagulado um ar várias vezes centenário”, no desenho dos jardins (onde os recantos sombrios são privilegiados, contrariamente aos amplos relvados planos do Ocidente), na forma dos telhados (cujos beirais, bastante mais largos do que no Ocidente, têm por função proteger da luz do sol), na cor neutra das paredes, para reter na sua superfície o reflexo do crepúsculo, no ambiente dos palcos, onde os actores de nô se movem flutuando numa luz cansada, no costume do enegrecimento dos dentes, para realçar o branco fantasmático do rosto das mulheres japonesas, em todos estes aspectos está presente a arte tipicamente japonesa de fazer sobressair o belo através de luzes indirectas e difusas. Para os japoneses, a própria sombra é um ornamento, dispensando objectos decorativos. Ao contrário dos ocidentais, em busca perpétua de claridades cada vez mais vivas, “da vela ao candeeiro de petróleo, do petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica”, sempre insatisfeitos com a sua condição, os japoneses preferem acomodar-se aos limites impostos pela natureza.
Junichiro Tanizaki era um conservador e um crítico feroz da influência do Ocidente na tradição oriental. Elogio da Sombra, um pequeno ensaio de 1933 (editado pela Relógio d’Água), é um ataque à imitação servil de certas técnicas artísticas ocidentais, as quais estariam a expatriar a arte japonesa e a retirar-lhe a sua singularidade e especificidade. O Japão, para Tanizaki, tem uma concepção estética muito própria, cuja essência deveria ser preservada. Tanizaki defendia mesmo que essa especificidade oriental estava em vias de extinção. Embora esta perspectiva esteja muito datada e de um nacionalismo exacerbado (que poderá ter legitimado a entrada do Japão na II Guerra Mundial), o texto, em termos literários, é uma pequena maravilha. É um elogio à sensibilidade humana, à capacidade de transportar os leitores para ambientes que evocam a sensação de infinito, conferem densidade à alma e profundidade aos pensamentos. Um espanto!

João Pedro George
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