3/28/2005

Crítica Bulldozer




Já me chamaram de tudo. Que sou de extrema-direita. Que não tenho sentido de humor. Que sou conflituoso. Que não sei beber. Que tenho maus vinhos. Que sou do contra. Um provocador. Agora, o meu camarada da revista Periférica, o Rui Ângelo Araújo, resolveu, na esteira do Blog de Esquerda, apelidar-me de crítico bulldozer (leia-se “Efeitos Colaterais da Crítica Bulldozer, nº 12, p. 13). Ou seja, os meus textos são “prosa indignada” à qual falta “alguma ironia”, embora, “todos reconhecem”, ela seja necessária... “mesmo que nem sempre acerte «na mouche»”. E necessária porquê? Porque “tem o dom de agitar as águas «demasiado paradas e consensuais da literatura portuguesa»”. É que, considera ainda o director da Periférica, “alguma crítica não ousa tocar em determinados autores”, envolvendo-os “numa esfera de inimputabilidade, por excessivo respeito, por servilismo, por amizade, por distracção”. O problema, para o Rui, é que são textos que fatalmente acabam por atrair “alguma necrofilia, uma franja do leitorado que se preocupa pouco com a literatura. Uma franja ressentida e impregnada de fel que adora ver as «vacas sagradas» serem «demolidas»”. São estes, em síntese, os argumentos do Rui. Dando de barato que o condimento da ironia não abunda nos meus textos; admitindo que todos reconhecem a necessidade da crítica bulldozer (o que, a ser verdade, só vem confirmar o nível de hipocrisia e de cinismo que caracteriza a crítica literária jornalística); concordando com a imagem das águas paradas e do servilismo da crítica (e aqui impunha-se ser mais explícito, mais concreto, menos vago), gostava de saber qual o problema de haver leitores necrófilos, esses abutres ressentidos que lêem apenas por voyeurismo (e o que é o leitor senão um voyeur?). A não ser que se considere que, no acto da leitura, há motivações legítimas e motivações menos legítimas. Que aquele que lê para se instruir é mais legítimo que outro que lê apenas por prazer e divertimento pessoal, como por exemplo os leitores motivados pelo instinto da satisfação sexual. Este moralismo, como bem sabemos, é perigoso e inaceitável. Do mesmo modo, afirmar que esses leitores não percebem o que lêem e que, paradoxalmente, são acríticos faz-me lembrar as teses marxistas da Teoria Crítica e da Escola de Frankfurt sobre a cultura de massas, teses mais que ultrapassadas e rejeitadas por inúmeros estudos sobre a recepção de bens culturais. Mas, bem vistas as coisas, o que é a crítica bulldozer? Para ser franco não sei, sinto-me, a esse respeito, nublado de dúvidas. Será do ratax?

João Pedro George
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