3/26/2005

Claustrofobia


Posted by Hello
Há cada vez mais escritores, cada vez mais gente escreve livros. Ricos e pobres, casados e celibatários, homens e mulheres de todas as profissões e de todas as classes sociais, todos escrevem, todos querem ser escritores, todos querem publicar obra. Mesmo a mais improvável das criaturas, como eu, deseja tornar-se escritor. Por toda a parte, onde quer que se esteja, na cidade ou no campo, na rua ou nas esquinas, a cada passo tropeçamos em alguém meditando uma obra-prima e pose de prémio Nobel. Nas mesas dos cafés, por entre o alarido das vozes, é vê-los debruçados a copiar a vida real, colhendo notas, elementos para futuros romances. Para onde quer que nos viremos, há indivíduos prestes a lançar um novo livro de poemas, um recolha de crónicas, uma peça de teatro, um melodrama. Basta consultar os escaparates das livrarias, observar a actividade editorial, acompanhar a produção literária na internet: todos os dias germina um novo escritor. Os portugueses são uns proletários da palavra. Passam a vida curvados sobre o computador a escrever sobre as suas crises ou a falar dos seus aborrecimentos. A queimar as pestanas para aprimorar o estilo, procurar a frase sonante, o trocadilho, a harmonia das sílabas. Nós, os portugueses, ainda gatinhamos e já queremos derramar no papel as nossas opiniões e as nossas teses sobre o género humano, ainda por cima convencidos de que acabámos de descobrir a electricidade. Hoje, o número de escritores ultrapassa, em muito, o de leitores. Se há crise nos hábitos de leitura, se as pessoas não têm tempo para ler é simplesmente porque estão ocupadas a escrever, em transe de inspiração, em tumulto criador. Talvez por isso Portugal seja um país pequeno. Pequeno demais para tantos escritores.
João Pedro George
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