3/26/2005

Agualusa

"Ao princípio ri-me com o acontecido, ri-me sem gosto, como se riem os infelizes apanhados em situações ridículas pelas câmaras de televisão"… "Ao princípio ri-me com o acontecido"… "Ao princípio ri-me"

Impossível! Estou quase há meia hora a ler a mesma frase da página 13 de um livro de contos do José Eduardo Agualusa (Catálogo de Sombras). É uma resistência intestinal: não continuo, não folheio o resto, não lhe dou hipótese, olho para o tecto e vejo o indivíduo a rir-se sem parar como se lhe tivessem contado a anedota divina.
Há coisa de um ano uma amiga foi operada a um olho. Durante a longa recuperação, manteve-me telefonicamente informada do seu estado. Explicou-me que houve qualquer coisa na vista direita que se retraiu e que lhe tornou a íris esbranquiçada e opaca, que tinha perdido parcialmente a visão e que o mais provável era perdê-la de vez. A operação apenas retardaria o processo. Pensei que se ficaria por ali mas ainda acrescentou uma inflamação no olho saudável: “sabes, é o que acontece normalmente, os médicos chamam-lhe oftalmologia simpática, como nos flashes das máquinas fotográficas: quando um dispara o outro faz o mesmo… por simpatia”. Passou um ano e a minha amiga encontrou-se, numa ocasião social, com o Agualusa, a quem já tinham contado que ela tinha tido uma ferida no olho. Foi quando se dirigiu a ele para o cumprimentar que o indivíduo se desatou a rir: “Epá, desculpa lá mas não consigo falar contigo… tás com o olho branco! Parece que tens um olho de vidro! Pareces um robô!” E riu-se, riu-se com gosto, “como se riem os infelizes, apanhados em situações ridículas”.
Quem sabe se noutras circunstâncias eu não me teria rido também, como uma infeliz que se apanha em situações ridículas mas, em vez disso, quando me contaram o episódio, odiei-o e odeio-o até hoje com aquele tipo de ódio que clama pela vingança de um dia lhe conseguir dizer pessoalmente que não adianta cortar o cimo das fotografias que põe nas badanas dos seus livros porque o que mais sobressai no indivíduo Agualusa quando por ele se passa, quando para ele se olha num comentário sobranceiro e televisivo sobre Angola é aquela falta de cabelo que ele insiste em disfarçar penteando-se para trás. Pobre homem, parece que foi escalpelizado!!! Nessa altura hei-de rir-me, “sem gosto, como se riem os infelizes apanhados em situações ridículas” e ultrapassarei, finalmente, este meu pequeno trauma.
Catarina Miranda

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