3/16/2005

Adrenalina do Medo

As motas são rápidas, excitantes, libertadoras. Não há nada que se compare à sensação de percorrer estradinhas esquecidas, com paisagens de tirar a respiração mas que enchem a alma de cores, sons, cheiros, vivências... onde nos entregamos às curvinhas com mais ou menos adrenalina. Mas não só. O outro tipo de adrenalina, a do medo, também faz parte. Para nós, motards, muito mais vezes do que as que desejaríamos. São sempre demais.

Local: 2ª circular, faixa mais à esquerda do eixo central;
Hora: meia-noite e picos;
Moto: XX 1100 (um motão, para os menos entendidos);
Intervenientes: o "piloto", eu à pendura e a Maria (vamos chamar-lhe assim), no seu Seat Ibiza novíssimo, azul petróleo;
Velocidade: cruzeiro (70/80 kms/h).

A Maria circulava na faixa central e vinha cansada de um dia inteiro de trabalho. Estava louca para chegar a casa, em Alverca. Nós vínhamos do Páteo dos Poetas, em Oeiras, depois de um cafezinho com o pessoal motard, lá do Motoclube. Depois de muita conversa sobre motores, pneus e combinações para passeios gastronómicos (e, claro, alguma inveja sobre as motas alheias), zarpámos para Lisboa. Como qualquer motard, alterámos a rota do costume (pela Marginal, tão mais romântica), para que um companheiro, que mora em Odivelas, não fosse sozinho. Buzinadela, cumprimento com a mão, piscas e ele lá seguiu para Odivelas. Nós continuámos.

Estava muito trânsito na faixa central e a faixa da esquerda estava livre. Pisca para a esquerda e zuca, lá vamos nós. A Maria, entretanto, dentro do seu confortável e seguríssimo Seat Ibiza última geração, fazia os últimos apontamentos sobre aquela reunião aborrecidíssima que se alongou muito além das after-hours numa folha que tinha pousada no banco do condutor. Olhou para a frente e viu o mesmo que nós... bastante trânsito. Faz pisca para a esquerda e mete-se. Olha depois de esguelha, só para "confirmar" que não vinha lá ninguém. Mas vinha. Vínhamos nós. Travões a fundo, a roda de trás a deslizar debaixo do meu rabo, tentando heroicamente agarrar-se ao alcatrão novamente e os nossos corpos impelidos para a frente, com a força da inércia/centrífuga. Maria assustou-se e voltou ao seu lugar. Nós passámos para a frente dela. Gritei: "puta de merda! É por estas putas que todos os dias morrem motards nas estradas portuguesas. Porque vão a pensar na puta da vidinha medíocre que levam, com reuniões e hierarquias e supermercados e relatórios e filhos e férias em Cuba!" O meu companheiro concordou seraficamente, com aquele ar "sim, mas não há nada a fazer contra isso..." Eu discordei. Posso não poder fazer muito, mas a Maria ia ter uma lição naquela noite. Se calhar, a mais importante da vida dela.

Estamos então à frente dela. Velocidade: 20 kms/h. Ela tenta ultrapassar pela esquerda. Nós não deixamos. Ela tenta ultrapassar pela direita. Nós não deixamos. A esta altura, Maria estava já em pânico e as pernas tremiam-lhe. Decidiu entrar numa estação de serviço. Nós não. Nós continuámos e fomos esperá-la à saída da bomba. Calmamente. Depois de 2 minutos de espera, ela apareceu, a rodar muito devagarinho. Também ela provou o sabor da adrenalina do medo. Corajosamente, abriu o vidro do carro (acredito que estivesse toda trancada). Aproximámo-nos. Disse-lhe: "Só para que saiba, é por atitudes como essa, género «é uma mota, ela passa" ou "é uma mota, não chega aqui a tempo», que todos os dias morrem motards nas estradas. Nós temos tanto direito como a senhora a circular na estrada. A única diferença é que somos muito mais conscienciosos. Temos SEMPRE de pensar por nós e pelos outros. Além de que a senhora vai confortavelmente sentada no seu carrinho classe média, que a protege, e nós não. Para si, se nos batesse, era apenas mais uma maçada... uma amolgadela no capot... mas para aqueles que gostam de nós... olhe, era uma grande amolgadela nos corações daqueles que nos amam." Maria largou então a BIC e, quase a chorar, pediu desculpa, que não tinha sido essa a sua intenção, que até tinha um irmão que também teve um acidente de mota e partiu uma perna, por uma situação do género e que de facto estava distraída e que não voltava a acontecer, porque nós tínhamos toda a razão. Despedi-me então, desejando-lhe o resto de uma noite feliz e uma boa viagem. Ela deixou-nos passar.

Pode não ser muito, mas tenho a certeza que a Maria vai falar de mim ao marido, aos filhos, aos pais e até aos colegas de trabalho, começando sempre com um: "vocês querem lá saber o que me aconteceu!...". Mas vai falar. E quem tenha dois dedinhos de testa vai perceber. Para quem não perceber deixo aqui uma equação simples:

Automóvel= carroçaria+4 rodas

Mota= 2 pessoas+2 rodas

Ana Ataíde


Tom Vitoín
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