3/31/2005

Tradução

“Flame Patrícia, Ki bu kré ainda, um ta dabo tudu di meu ka bu négal, ami kre sunha mabo beleza na mar. bjs.

Mais do mesmo. Ele insiste na hora do expediente com a mesma mensagem mas desta vez estou preparada, não lhe vou responder. É demasiado. Não estou à altura. O telefone a tocar, aí está, agora é de viva voz. Vou atender. “Não te quero pressionar mas o mínimo que podes fazer quando um tipo te oferece o mundo é dares-lhe uma resposta ou tás-te a armar em díficil, nem parva és, és parvinha. Não te quero pressionar mas estou à porta da tua empresa.Para saires tens de passar por mim.” Estou a caminho da porta. Nem mais, o “cavalo” estava à minha espera. Decidi-me nesse preciso momento. Já levava a chave do carro no bolso para o que desse e viesse. Agarrei-lhe na mão e, com o olhar, indiquei-lhe a porta do carro, lado do condutor, “Agora leva-me para onde quiseres, para o estádio da luz, para a Jamaica, para onde quiseres... ou queres que eu te conduza?". Arrancou e levou a primeira até à última, já cheirava a queimado mas foi o suficiente para se acalmar. Olhei sempre para a estrada mas conseguia vê-lo pelo canto do olho. Um verdadeiro espécime do reino animal. Cruzei as pernas... com força e assim ficaram até chegarmos ao parque de estacionamento de um restaurante que, com certeza, estava vazio. “O quê, tanta coisa para irmos almoçar? Se me queres dar o mundo dá, não estejas com rodeios”. Mordeu o lábio mas emendou a mão e beijou-me. Começámos a avançar mas deu-me uma daquelas cãibras. É o que dá fazer isto nos carros. Ficámos a rir e a dizer estupidezes durante meia hora. Fomos para casa e telefonei para a empresa a dizer que estava doente. Ainda pensei “epá não me ando a dedicar ao trabalho” mas depois passou-me.

Patrícia H.

A Minha Mulher II

Enfiou o frango na água, juntou-lhe cerveja branca, leite e noz moscada. Virou-se para mim e apontou para os temperos – “o sal e a pimenta ficam ao seu gosto D. Patrícia”. Eufémia resolveu vir ontem. O patrão para quem trabalha durante a semana chamou-lhe “cadela”, que nem para lhe engraxar as botas servia. Porreiro, é da maneira que me faz a sopa e fica ao pé de mim. Sentámo-nos na mesa da cozinha para comer e ela, de olhos no chão, a custo, contou-me o sonho que tinha tido: “Tenho andado cansada… veja lá, sonhei que estava com uma gripe dos diabos e que me enfiava consigo na sua cama, a tremer de frio.” Perguntei-lhe há quanto tempo não era vista por um médico mas ela fez ouvidos de mercador. Tomei coragem: “Se quiser realizamos-lhe o sonho, vamo-nos deitar, está na hora da sesta”. Fomos. “Ponha-se à vontade”. Ela não hesitou. Caramba, estava a deitar-me com uma mãe: não tinha ancas, tinha ilhargas. Com certeza deu de mamar, as minhas mãos juntas não chegavam para lhe apanhar um seio. Pronto, aí estava eu numa dessas emboscadas, ela já me parecia um sucedâneo de uma das netas do Hemingway em versão matrona. Tresandava a fertilidade. Antes de adormecermos tocou com os pés dela nos meus. Por ontem fiquei saciada, parecia "um eremita extasiado". Foi-se uma tarde de trabalho. Já não consegui sair da cama.

Patrícia H.

Ahhhh... O fim do mês!

3/30/2005

Elogio da Sombra



O Japão, ao contrário do Ocidente, procura o belo no escuro, nas sombras e na claridade ténue e precária. Por exemplo, enquanto os ocidentais gostam do brilho dos utensílios de prata – daí os polirem tanto – os orientais preferem a patine que escurece a superfície do metal, que lhe confere aquele reflexo maculado pela passagem do tempo. Este culto à obscuridade, à calma transmitida pela sombra, é visível também no agrado que a luz vacilante das velas provoca no espírito dos japoneses. A chama das velas, ao contrário da luz eléctrica, pacifica o coração do ser humano e incita-o ao sonho. Ao contrário da lâmpada, a chama agita-se e ao agitar-se revela o pulsar da atmosfera e a ressonância da alma. Na jade, esses blocos de pedra “estranhamente enevoados, que aprisionam nas profundezas da sua massa vagas luzes fugitivas e indolentes, como se neles se tivesse coagulado um ar várias vezes centenário”, no desenho dos jardins (onde os recantos sombrios são privilegiados, contrariamente aos amplos relvados planos do Ocidente), na forma dos telhados (cujos beirais, bastante mais largos do que no Ocidente, têm por função proteger da luz do sol), na cor neutra das paredes, para reter na sua superfície o reflexo do crepúsculo, no ambiente dos palcos, onde os actores de nô se movem flutuando numa luz cansada, no costume do enegrecimento dos dentes, para realçar o branco fantasmático do rosto das mulheres japonesas, em todos estes aspectos está presente a arte tipicamente japonesa de fazer sobressair o belo através de luzes indirectas e difusas. Para os japoneses, a própria sombra é um ornamento, dispensando objectos decorativos. Ao contrário dos ocidentais, em busca perpétua de claridades cada vez mais vivas, “da vela ao candeeiro de petróleo, do petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica”, sempre insatisfeitos com a sua condição, os japoneses preferem acomodar-se aos limites impostos pela natureza.
Junichiro Tanizaki era um conservador e um crítico feroz da influência do Ocidente na tradição oriental. Elogio da Sombra, um pequeno ensaio de 1933 (editado pela Relógio d’Água), é um ataque à imitação servil de certas técnicas artísticas ocidentais, as quais estariam a expatriar a arte japonesa e a retirar-lhe a sua singularidade e especificidade. O Japão, para Tanizaki, tem uma concepção estética muito própria, cuja essência deveria ser preservada. Tanizaki defendia mesmo que essa especificidade oriental estava em vias de extinção. Embora esta perspectiva esteja muito datada e de um nacionalismo exacerbado (que poderá ter legitimado a entrada do Japão na II Guerra Mundial), o texto, em termos literários, é uma pequena maravilha. É um elogio à sensibilidade humana, à capacidade de transportar os leitores para ambientes que evocam a sensação de infinito, conferem densidade à alma e profundidade aos pensamentos. Um espanto!

João Pedro George

O Homem Demolidor

Há quem duvide da utilidade de ler os discursos, as memórias e os pensamentos das personalidades de hoje. E por bons motivos. Raramente defendem ideias novas e interessantes; o estilo costuma alternar entre o relatório de contas e a declaração amorosa; e – logo abaixo de bispos, professores e escanções – fica sempre a suspeita de que o autor é mentiroso.
Veja-se o caso de Durão Barroso. No seu último livro, ainda Primeiro-Ministro, página sim, página não promete o «alívio da carga fiscal» (sob a forma de «choque»). Chegou ao governo e .... aumentou o IVA. Página sim, página não longas enumerações dos males nacionais na educação, na saúde, nas finanças e sempre com números para provar. Tudo verdade, sim senhor. Mas Portugal está mal desde o séc. XVII. Não basta dizer que se «acredita nos portugueses». É preciso, além de diagnósticos, uma política realista para o país e, agora, para Europa. E só para saber se ela existe, vale a pena ler Mudar de Modelo.
A política orçamental é o «eixo central» das propostas de Barroso. Segundo ele, há que cortar nas «aplicações inúteis» e pôr «fim» o mais depressa possível ao «despesismo» e atingir o «equilíbrio orçamental». Para tal, promete uma «gestão profissionalizada» dos serviços do Estado, que passa por «parcerias» com «entidades privadas» e, em certos casos, privatizações.
Até aqui tudo bem. Qualquer pessoa sensata poderia subscrever este programa. Exceptuando os dirigentes do futebol, há alguém que defenda publicamente o «clientelismo» e a gestão pouco profissional? E mesmo que houvesse, a ortodoxia europeia obriga-nos a esta política. Aqui, Barroso está simplesmente a repetir as recomendações dos senhores comissários.
Mas a fé de Durão Barroso no orçamento é ainda mais profunda, pois «só depois de reabilitadas as finanças públicas, de modo a libertar o sistema do parasitismo clientelista (...) é que (...) governo poderá concentrar-se nas tarefas essenciais do Estado». O significado disto é óbvio: Durão não tem qualquer projecto político. Pois o normal é ser a definição das «tarefas essenciais do Estado» a determinar a «reabilitação» das finanças, não o inverso. Não basta dizer, "Levanta-te e Caminha"! O corte da despesa, presume-se, deveria estar subordinado a uma visão política geral. Não faz sentido cortar só por cortar. E há áreas onde até deve ser necessária mais despesa, não menos. E quais são? Durão não diz. Que prioridades tem? A Educação, a Defesa, a Saúde? Chapéus para o Verão ou chaves-de-ouro da vila de Abrantes? Sobre isto, nicles.
Na verdade, o que se está aqui a cozinhar é antes um ataque à própria ideia de Estado. Para Durão, «o Estado é normalmente o problema e não a solução». E por isso deseja que o Estado «ominipresente» e «prestador» dê lugar ao Estado «garante, regulador e fiscalizador». Que isto implica necessariamente mais despesa, não o parece preocupar. Para o Primeiro-Ministro, o «fortalecimento da sociedade civil» vai por si só resolver todos os problemas. Mas é exactamente nos países com maior Estado-Providência (na Escandinávia) que a participação cívica é maior que as associações são mais activas. Esta crendice chega ao apogeu na política social. Para Durão, a distinção entre segurança social pública e privada é uma «falsa questão». Há sim que valorizar a família, as misericórdias e as associações de beneficiência na protecção, note-se, dos «deficientes», dos «doentes», dos «mais pobres» e das «famílias com mais dificuldades». Por essa Europa fora, que Durão tanto admira, a providência social foi, e ainda é, um direito universal; por estas bandas, é uma ajudinha aos «que mais precisam». Só uma minoria vai beneficiar das suas políticas: os poderosos desta terra e a nova casta de quadros e gestores que saltita à sua volta. Mas da classe média para baixo, ou seja, quase toda a gente, o que se espera do governo é mais serviços do Estado, não menos, para fazer frente à insegurança do quotidiano e às mudanças abruptas do mercado.
O que nunca encontramos no livro de Durão Barroso é um verdadeiro pensamento político. Sabemos que é adepto do «patriotismo» e do «humanismo cristão». Mas que ideia tem da “boa sociedade”? Qual a sua definição das obrigações e dos deveres do cidadão? Quais os limites da acção política (é ingenuidade minha, mas não há, por exemplo, qualquer reflexão sobre o poder das grandes empresas)? Qual o papel dos partidos e dos movimentos sociais? Que aqueles são hoje meras agências de recolha de fundos já todos sabemos. Mas acha isso bem?
Aliás, as medidas que defende vão precisar de governos fortes e com elevada legitimidade. Isso poderia até ser um estímulo para um fortalecimento dos partidos do governo, e em consequência, um apelo à participação política e cívica. Em Portugal, sendo o que as coisas são e a avaliar pelos congressos do PSD, onde o governo engole sempre o partido, a evolução parece ser em sentido contrário. Com o previsível crescimento da contestação social, e sem um partido forte e mobilizador, os governos, por mais retórica anti-lobbie que produzam, tenderão sempre a apoiar-se nos mais poderosos, nas “elites” (agora tão em voga), e ao contrário do que se tem proclamado, a serem fracos.
Ninguém espera que Durão, aqui como na Europa, seja um Péricles ou um Lincoln. Mas é triste ver como Presidente da Comissao Europeia o chefe de uma comissão de liquidação.

Durão Barroso, Mudar de Modelo, Gradiva, Lisboa, 2002.

Tiago Fernandes

Zimbabwe



O meu cabelo estava nojento. Percorri 140 kilómetros até chegar a Mutoko. O elástico que o prendia estava podre e pela primeira vez invejei a carapinha dos africanos. Seca e volumosa, indiferente à humidade e ao calor. Só apetecia deitar-me para o chão mas os milhares de pessoas que iam ouvir o presidente não me davam espaço para o fazer.
Nisto o homem chegou. Vinha dentro de um jipe com vidros fumados, um Toyota, seguido por uma pick up com militares. Está há 25 anos no poder, ainda lhe faltam três para acabar o mandato e é precisamente isso que lhe está na cara, no andar e na roupa. Uma camisa vermelha e branca com o próprio retrato estampado. À volta dele uma comitiva vestida de igual mas a preto e branco. É difícil descrever aquele bigode. Um tufo longitudinal que ocupa apenas a covinha acima do lábio superior. Robert Mugabe começa a falar e toda a gente, toda, eu também, se senta no chão e se cala.
“Este país não vai ficar nas mãos de marionetas. Nenhuma marioneta há-de governar o Zimbabwe. Nunca. O povo do Zimbabwe é uma força revolucionária e não há nada a fazer para modificar isso. Estão unidos por uma liderança, unidos por um partido.”
Levantaram-se todos, eu também, bateram-lhe palmas furiosamente e gritaram-lhe o nome até à exaustão. Olhei para o lado, vi uma mulher e um homem a acenarem um cartaz – “The only Blair that I know is a toilet”. Estava atarantada, resolvi abrir o jornal que tinha comprado em Harare. A campanha eleitoral do partido do poder e de Mugabe tinha assumido a fórmula anti-Blair. Ser contra os ingleses, a antiga potência colonial, significaria para o povo, “ter de volta a terra, acabar com o fecho racista das fábricas, acabar com as sanções da União Europeia e dos Estados Unidos e finalmente acabar com a oposição... ao serviço dos interesses britânicos e norte-americanos”.
O discurso acabou. Um homem puxou-me pela mão e mandou-me dançar. Foi nessa altura que desmaiei. Só voltei a acordar no quarto de hotel, ar condicionado, e lembrei-me do que tinha lido em Lisboa sobre o ditador Robert Mugabe, os castigos da comunidade internacional.
Já ouvi dizer que o partido do homem volta a ganhar. Não faço ideia. Fiquei com a sensação de que, em Mutoko, lhe bati palmas e lhe gritei o nome. Naaa... devo ter sonhado, eu a aplaudir o facínora, a gritar... era o que faltava. Preciso de lavar a cabeça e de comprar pastilhas para a garganta.

Catarina Miranda

Clã

Actualmente, o termo clã, enquanto membros de uma tribo, desapareceu por completo. Julgamos ser coisa pré-histórica, da altura em que éramos (?) macacos, vivíamos em cavernas e aguardávamos placidamente que o macho dominante do grupo nos viesse montar. Errado!
Continuamos os mesmos macacos, vivemos em cavernas e aguardamos que o nosso macho nos venha montar, só que agora damos-lhe outros nomes. Agora, somos Homens (com agá maiúsculo) porque temos menos pelos, somos bípedes porque passámos a andar em duas pernas e ganhámos a oposição do polegar; vivemos em apartamentos ou vivendas e somos montadas pelos nossos maridos (ou não!). Modernices!...

Mas o que é verdadeiramente importante, ficou cá. A informação genética. Num cenário típico de um clã, uma atitude típica de um clã de macacos: em noite de café com os amigos motards, estavam cerca de 10 homens e 4 mulheres. Facto curioso, foi uma ter trazido a sua cria, com cerca de 3 anos, para entretenimento geral. Sem ninguém dar por nada, o nosso amiguinho afastou-se um pouco das mesas onde todos estávamos reunidos, como se tivéssemos uma fogueira invisível ao centro. Todos falavam e riam. Nesse momento, a nossa cria chilreou.

Reparei então que todas as mulheres do grupo se viraram e procuraram a "sua" cria com o olhar. O sentimento de perigo percorreu-nos a todas. E todas reagimos.

Os homens, nem a ouviram.

Ana Ataíde

3/29/2005


Taganskaya - Estação de Metro, Moscovo

A Minha Mulher

Tenho uma duna em frente à porta de casa. Foi o vento que a trouxe e é o vento que a faz entrar, todos os dias, pelas frestas das janelas. Varrer a casa é a primeira coisa que faço quando acordo e a última antes de me deitar. A duna é feita de areia preta e impede-me o acesso ao carro. Incomoda-me e não me dá descanso. Só posso contar com a ajuda da Eufémia aos sábados e passo a semana a ansiar por esse dia. Depois de varrer o chão entra no meu quarto sem eu dar por isso, larga o tabuleiro com o pequeno almoço aos pés da cama e volta para a cozinha. Duas horas mais tarde vou ter com ela à sala e assistimos à novela, episódio de sexta-feira que lhe gravo religiosamente porque ela trabalha àquela hora. Comentamos os dramas, as alegrias e os penteados das personagens. Sempre que fecho os olhos e levo as mãos ao pescoço ela pergunta-me se estou bem, se preciso de uma massagem. Costumava negar-lhe o favor mas hoje tive a ousadia de aceitar. Pressionou-me os dedos na nuca e comecei a escorregar paulatinamente pelo sofá até ficar deitada de costas para ela. Continuou, suave mas com firmeza, a passar-me as mãos pelas costas. O cérebro ficou dormente mas o coração foi atacado por uma taquicardia. Devo ter ficado com pele de galinha porque ela levantou-se para ir buscar um cobertor. Quando chegou eu já estava deitada de barriga para cima. Tapou-me carinhosamente sem nunca alterar a expressão. Ajoelhou-se e ficou com a cara em frente à minha: “dona Patrícia, a senhora é um anjo que me apareceu na vida, gosto de si como se gosta de uma irmã”. Beijou-me os lábios. Um beijo longo e interminável a que eu não soube responder porque estou longe de ser um anjo e não sou a irmã dela. Senti culpa pelo prazer e pelo desejo que me provocava. No sábado não consegui beijar a Eufémia.

Patrícia H.

Marit

É por esta altura do ano que os Alpes italianos estão no auge. O inverno já não está rigoroso e a primavera anuncia-se devagar. A obrigação de esquiar é menos forte e as pessoas preferem andar pelos bares, a beber café e grappa, ou pelas ruas a acolher o sol quente na cara e a ver quem passa. Os dias correm animados e coloridos, como um grande recreio.
Quando cheguei, o Gabriel já lá estava há uns dias. Dei com ele num bar, o Mezzogiorno, metido num grupo heterogéneo e muito falador. Italianos, ingleses, alemães, dinamarqueses, espanhóis e um preto do Burkina-Faso.
"Que malta é esta?.
"São uns estudantes de doutoramento de Oxford que vieram pràqui de férias. Conheci-os aí à noite e desde então colei-me. Há umas miúdas giras".
"Tou a ver".
"Estou à tua espera há três dias, tinha que falar com alguém. E estou a ver se papo esta alemã aqui do lado".
Sentei-me e pedi um café americano. Demora mais tempo a beber. O Gabriel estava muito animado e apresentou-me as duas tipas que estavam perto dele. A Marit, dinamarquesa, cabelos ruivos e olhos verdes, sweater decotada até ao início do peito, a pele vermelha do sol, maneiras tímidas. A Utte, alemã e, como não podia deixar de ser, mandona. Cabelos castanhos curtos, olhos azuis, um pouco chubby. Lambia os lábios secos do sol.
Utte: "O teu amigo disse-me que estás a escrever um livro. Mesmo agora discutíamos a última polémica entre Ricouer e Habermas sobre o sentido da crítica. Agora em Oxford, finalmente, somos todos continentais".
"Deve ser do alargamento", respondi.
A Marit riu-se e perguntou-me o que estava um rapaz português a fazer ali. Demorei a beber o café e deixei o Gabriel responder. "Estamos a tentar desenvolver o ski em Portugal. Há um sítio, a Serra da Estrela, que está pouco aproveitado. Queremos ser os primeiros". Sempre admirei a lata dele, mas esta foi do melhor.
"Vamos todos agora para as pistas negras, que vão fechar amanhã por causa da neve solta. Queres vir?", perguntou-me a Marit. "Erh ... sim". O Gabriel, já esquecido de mim, de ombro colado à alemã, ouvia-a, deleitado, a descrever a vida em Oxford.
Saímos juntos. Lá fora uma multidão de putos corria para todos os lados, uma soma de sons como os pássaros ao amanhecer.

Luis Serpa

Mais um mestre

Os comentários do gajo da revista são do tipo "ah, ele é tão engraçado, tão rebelde, até diz o que todos nós pensamos mas é um bocadinho exagerado". No fundo também ainda não saiu do quentinho dos chinelos da respeitabilidade. É mais um mestre-escola, de vareta na mão, a ponderar sobre os limites morais da arte.

Tiago Fernandes

3/28/2005

Crítica Bulldozer




Já me chamaram de tudo. Que sou de extrema-direita. Que não tenho sentido de humor. Que sou conflituoso. Que não sei beber. Que tenho maus vinhos. Que sou do contra. Um provocador. Agora, o meu camarada da revista Periférica, o Rui Ângelo Araújo, resolveu, na esteira do Blog de Esquerda, apelidar-me de crítico bulldozer (leia-se “Efeitos Colaterais da Crítica Bulldozer, nº 12, p. 13). Ou seja, os meus textos são “prosa indignada” à qual falta “alguma ironia”, embora, “todos reconhecem”, ela seja necessária... “mesmo que nem sempre acerte «na mouche»”. E necessária porquê? Porque “tem o dom de agitar as águas «demasiado paradas e consensuais da literatura portuguesa»”. É que, considera ainda o director da Periférica, “alguma crítica não ousa tocar em determinados autores”, envolvendo-os “numa esfera de inimputabilidade, por excessivo respeito, por servilismo, por amizade, por distracção”. O problema, para o Rui, é que são textos que fatalmente acabam por atrair “alguma necrofilia, uma franja do leitorado que se preocupa pouco com a literatura. Uma franja ressentida e impregnada de fel que adora ver as «vacas sagradas» serem «demolidas»”. São estes, em síntese, os argumentos do Rui. Dando de barato que o condimento da ironia não abunda nos meus textos; admitindo que todos reconhecem a necessidade da crítica bulldozer (o que, a ser verdade, só vem confirmar o nível de hipocrisia e de cinismo que caracteriza a crítica literária jornalística); concordando com a imagem das águas paradas e do servilismo da crítica (e aqui impunha-se ser mais explícito, mais concreto, menos vago), gostava de saber qual o problema de haver leitores necrófilos, esses abutres ressentidos que lêem apenas por voyeurismo (e o que é o leitor senão um voyeur?). A não ser que se considere que, no acto da leitura, há motivações legítimas e motivações menos legítimas. Que aquele que lê para se instruir é mais legítimo que outro que lê apenas por prazer e divertimento pessoal, como por exemplo os leitores motivados pelo instinto da satisfação sexual. Este moralismo, como bem sabemos, é perigoso e inaceitável. Do mesmo modo, afirmar que esses leitores não percebem o que lêem e que, paradoxalmente, são acríticos faz-me lembrar as teses marxistas da Teoria Crítica e da Escola de Frankfurt sobre a cultura de massas, teses mais que ultrapassadas e rejeitadas por inúmeros estudos sobre a recepção de bens culturais. Mas, bem vistas as coisas, o que é a crítica bulldozer? Para ser franco não sei, sinto-me, a esse respeito, nublado de dúvidas. Será do ratax?

João Pedro George

Electrozavodskaya - Estação de Metro, Moscovo

Dizer Quase a Mesma Coisa Sobre a Tradução

“Flame Patrícia, Ki bu kré ainda, um ta dabo tudu di meu ka bu négal, ami kre sunha mabo beleza na mar. bjs."

Um sms em plena hora de expediente. Um abalo. A minha capacidade de trabalho acabou de diminuir para 20 por cento. Não percebo nada daquilo que ele me escreveu, soa bem mas estará a mandar-me à merda diplomaticamente, será um devaneio ou uma descarga de testosterona. Não há aqui ninguém que perceba a língua e mesmo que houvesse, não me atreveria, sei lá eu o que raio está ali escrito. Uma vez chamaram-me colonizadora bloqueada porque não percebia a letra dos funanás de um Cabral. Azar. Basta uma única palavra daquelas e a frase perde o sentido. Na verdade não quero resistir-lhe, à língua. Faltava-me isto numa altura em que estava tão entretida a pensar naquilo. Que maneira de arrumar uma gaja complicadíssima como eu. Não sei que fazer.
Tenho que traduzir a mensagem. Tenho que a traduzir.

Patrícia H.

Marxismos Imaginários


Da missa para casa, treino boxe e leio Marx. Ontem diziam-me: deves estar cultíssimo e… chato. Concordei facilmente, porque muitas vezes me olho assim ao espelho, quando saio do banho às seis da manhã, duas horas antes de começarem as aulas. Depois desço à rua e bebo um café. Hoje recebi o subsídio de férias. Vou comprar um carro em segunda mão. Basta um reforço no empréstimo do banco e parto para Marrocos. No fim do ano ou em Fevereiro. Tanto faz. Os olhos charrados do Pedro dizem que sim, que vamos a Marrocos, não tenhas dúvidas. E começou a contar histórias intermináveis sobre viagens, ao deserto, ao oásis, às praias do Norte de África. Eu lembrei-me da minha estadia em Oslo, no Verão passado. Sozinho. Um mês. Como é que conseguiste? perguntou-me. Sei lá. Apeteceu-me ser diferente. Sempre adorei praia. Sempre quis viver perto de uma praia. Quando for mais velho vou viver para a Costa da Caparica. Ali perto da Cova do Vapor, naquelas vivendas magníficas perto da Trafaria, onde o Tejo acaba e o mar começa. Oslo foi só para contrariar. Obrigar-me a conhecer o que o meu feitio e gosto nunca me permitiriam conhecer. Marrocos, Oslo, Costa da Caparica. E Marx.
Muito bem, hoje vamos falar um pouco sobre Marx. Comecei por uma pequena introdução biográfica. Queria contornar os aspectos económicos. Porque não percebo e não gosto. Mas só para contrariar, tive que estudar também isso. Daí que a aula se tenha prolongado para lá da hora. Começaram os protestos. Temos uma aula a seguir. A porta abriu-se e apareceu o professor das 11. Vou já. E fui. Algumas alunas fizeram-me ainda uma perguntas sobre o trabalho do final do semestre. Um dia ainda vais acabar por casar com uma aluna. Acredito nisso, quando me dizem. Porque nunca saio de casa, excepto para ir às aulas. E para ir a Marrocos. E a Oslo. E à Costa, quando me decidir a vender esta casa. Decidir não, porque só daqui a três anos é que posso, segundo dizem no banco.
Estou agora à espera de um telefonema. Aproveito para escrever um pouco de poesia. Nunca percebi esta minha inclinação. Escrevo poesia mas não gosto, nem quero que me leiam. Assim que escrevo um poema vai para o caixote do lixo. Sei que tenho talento mas não gosto. A dança da lua. Um músico irlandês chamou-lhe isso, à poesia que vai para o caixote do lixo. Estou à espera no gabinete da faculdade. Enquanto espero batem à porta. Entre. Mais uma aluna. Não a conheço. Nunca foi às aulas, talvez uma trabalhadora estudante. Sim, porque deve ter uns trinta e tal. Eu sou mais novo. Nem trinta tenho. Sim? Desculpe incomodá-lo, professor, mas queria fazer-lhe uma entrevista exploratória para o meu trabalho de final de curso. Está a fazer a minha cadeira? Sim, estou, mas não tenho podido assistir às aulas. Não perguntei porquê, embora me apetecesse. Porque era uma mulher que eu queria foder, embora só há dois minutos a conheça. É sobre o quê, o trabalho? Viagens… respondeu-me. Bom, talvez não tenha batido à porta certa. Não sou grande viajante… Mas disseram-me que vai para Marrocos. Como é que sabe? Disse-me o Pedro… Conhece o Pedro? Fui ontem para a cama com ele. Se calhar também quer vir até Marrocos? Sim, respondeu-me, mas sem o Pedro. Só nós os dois. Porquê, quer ter uma boa nota na minha cadeira? Talvez.
António Vergara

3/27/2005


Os bigodes da nossa vida!!

Ruivas: Tese ou Antítese?

Se eu fosse homem, gostava era de ruivas. Peles leitosas, sardentas, olhos mel, quase licorosos, cabelos vermelhos, cor de canela. As ruivas têm uma magia que nenhum outro tipo de mulher tem, lembrando-me sereias que, acredito firmemente, ainda hoje vagueiam lá para os lados dos fiordes nórdicos, onde o tempo não passa. Por nada. Por ninguém. É incrível como a Natureza tem um sentido estético/cromático tão apurado. Se virmos bem, as cores do Homem contrastam com uma perfeição assustadora com as cores do meio que o rodeia. A ver: no deserto africano, onde o tom predominante é o amarelo, as peles tendem a ser negras; nas luxuriantes paisagens verdes dos highlands, os cabelos vermelhos são a tónica; nas placas geladas, onde o branco fere os olhos, a pele volta a escurecer, ainda que com um tom mais avermelhado... São inúmeros os exemplos desta estranha forma de sentido estético.

A Natureza deu-me cabelos pretos, pele tão branca que toca a anemia e sardas. Está, ou não, confusa, a Natureza?!



Ana Ataíde

3/26/2005

Agualusa

"Ao princípio ri-me com o acontecido, ri-me sem gosto, como se riem os infelizes apanhados em situações ridículas pelas câmaras de televisão"… "Ao princípio ri-me com o acontecido"… "Ao princípio ri-me"

Impossível! Estou quase há meia hora a ler a mesma frase da página 13 de um livro de contos do José Eduardo Agualusa (Catálogo de Sombras). É uma resistência intestinal: não continuo, não folheio o resto, não lhe dou hipótese, olho para o tecto e vejo o indivíduo a rir-se sem parar como se lhe tivessem contado a anedota divina.
Há coisa de um ano uma amiga foi operada a um olho. Durante a longa recuperação, manteve-me telefonicamente informada do seu estado. Explicou-me que houve qualquer coisa na vista direita que se retraiu e que lhe tornou a íris esbranquiçada e opaca, que tinha perdido parcialmente a visão e que o mais provável era perdê-la de vez. A operação apenas retardaria o processo. Pensei que se ficaria por ali mas ainda acrescentou uma inflamação no olho saudável: “sabes, é o que acontece normalmente, os médicos chamam-lhe oftalmologia simpática, como nos flashes das máquinas fotográficas: quando um dispara o outro faz o mesmo… por simpatia”. Passou um ano e a minha amiga encontrou-se, numa ocasião social, com o Agualusa, a quem já tinham contado que ela tinha tido uma ferida no olho. Foi quando se dirigiu a ele para o cumprimentar que o indivíduo se desatou a rir: “Epá, desculpa lá mas não consigo falar contigo… tás com o olho branco! Parece que tens um olho de vidro! Pareces um robô!” E riu-se, riu-se com gosto, “como se riem os infelizes, apanhados em situações ridículas”.
Quem sabe se noutras circunstâncias eu não me teria rido também, como uma infeliz que se apanha em situações ridículas mas, em vez disso, quando me contaram o episódio, odiei-o e odeio-o até hoje com aquele tipo de ódio que clama pela vingança de um dia lhe conseguir dizer pessoalmente que não adianta cortar o cimo das fotografias que põe nas badanas dos seus livros porque o que mais sobressai no indivíduo Agualusa quando por ele se passa, quando para ele se olha num comentário sobranceiro e televisivo sobre Angola é aquela falta de cabelo que ele insiste em disfarçar penteando-se para trás. Pobre homem, parece que foi escalpelizado!!! Nessa altura hei-de rir-me, “sem gosto, como se riem os infelizes apanhados em situações ridículas” e ultrapassarei, finalmente, este meu pequeno trauma.
Catarina Miranda

Claustrofobia


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Há cada vez mais escritores, cada vez mais gente escreve livros. Ricos e pobres, casados e celibatários, homens e mulheres de todas as profissões e de todas as classes sociais, todos escrevem, todos querem ser escritores, todos querem publicar obra. Mesmo a mais improvável das criaturas, como eu, deseja tornar-se escritor. Por toda a parte, onde quer que se esteja, na cidade ou no campo, na rua ou nas esquinas, a cada passo tropeçamos em alguém meditando uma obra-prima e pose de prémio Nobel. Nas mesas dos cafés, por entre o alarido das vozes, é vê-los debruçados a copiar a vida real, colhendo notas, elementos para futuros romances. Para onde quer que nos viremos, há indivíduos prestes a lançar um novo livro de poemas, um recolha de crónicas, uma peça de teatro, um melodrama. Basta consultar os escaparates das livrarias, observar a actividade editorial, acompanhar a produção literária na internet: todos os dias germina um novo escritor. Os portugueses são uns proletários da palavra. Passam a vida curvados sobre o computador a escrever sobre as suas crises ou a falar dos seus aborrecimentos. A queimar as pestanas para aprimorar o estilo, procurar a frase sonante, o trocadilho, a harmonia das sílabas. Nós, os portugueses, ainda gatinhamos e já queremos derramar no papel as nossas opiniões e as nossas teses sobre o género humano, ainda por cima convencidos de que acabámos de descobrir a electricidade. Hoje, o número de escritores ultrapassa, em muito, o de leitores. Se há crise nos hábitos de leitura, se as pessoas não têm tempo para ler é simplesmente porque estão ocupadas a escrever, em transe de inspiração, em tumulto criador. Talvez por isso Portugal seja um país pequeno. Pequeno demais para tantos escritores.
João Pedro George

Corredor


Diogo Freitas da Costa, 2004 Posted by Hello

Periférica Nº 12

3/25/2005

Telegrama de Guernica


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Um quadro divertido. Stop. Como se fosse infantil. Stop. Parecem crianças a brincar às escondidas lá no quarto menos o boi e o cavalo que estão a contar. Stop. O boi está com uma cara pensativa e o cavalo está com cara de palerma. Stop. Há uma menina que sai do armário dos brinquedos com a mão a segurar uma vela. Stop. Uma cara com medo porque está escuro e uma mulher a esconder-se do cavalo com um bico na boca que caiu da luz. Stop. Estão todos a olhar para a luz. Stop. O senhor enganou-se a pintar porque não tem cor. Stop


P.S. Telegrama enviado de Madrid pela Catarina Freire, 6 anos, para Catarina Miranda e João Pedro George

3/21/2005

Kievskaya - Estação de Metro, Moscovo
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3/20/2005

Brincadeiras Proibidas

Estava particularmente feia. As rugas em redor dos olhos, muito assanhadas. O rosto cansado, ligeiramente inchado por ter dormido em demasia. Para piorar vestiu aquela camisola com losangos pretos e brancos e juntou-lhe aquele tipo de calças de ganga com boca de sino e desenhos bordados a branco nos bolsos que nem a uma jovenzinha perfeita ficam bem. O cabelo estava lavado mas secou da maneira errada. No café do costume fez conversa de circunstância com todos os que por ela passaram e a cumprimentaram. O que disse não tinha o mais pequeno interesse, chegava a ser constrangedor. Uma obra-prima da natureza. Um quadro digno de Botticelli. Num impulso infantil olhei para ela. Respondeu-me com um sorriso lúbrico que me fez cócegas e me fez sentir o coração... entre as pernas.
Patrícia H.

3/19/2005

O Texto Mais Inconsequente do Mundo


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Depois de 39 anos de "violenta oposição", a UNITA integra agora o governo angolano. Acabei de chegar a Luanda. A primeira impressão é má e já me disseram que a segunda também. Tenho um encontro marcado com Ernesto Mulato, o vice-presidente do partido, que me vai explicar por que razão não se afasta a UNITA do poder: o Ministro da Saúde (da UNITA) descobriu irregularidades no sector, quis alterar o seu ministério e foi impedido de o fazer pelo Presidente José Eduardo dos Santos. O líder do partido e natural candidato às próximas eleições presidenciais e legislativas, Isaías Samakuva, já disse a toda a gente que está disposto a engolir alguns sapos em nome da estabilidade: "a UNITA não vai deixar o governo de unidade e reconciliação nacional". Ernesto Mulato estava à minha espera no hall de entrada do hotel. Pequenino, careca, com óculos. À primeira vista pareceu-me que gostou de mim. Talvez lhe agradasse a ideia, apesar de não ser essa a minha intenção, de alguém que foi conhecer o país e começa por querer perceber o que é que sente um partido antigo que experimenta o poder pela primeira vez. Pedi uma Coca-Cola e ouvi-o falar em populações angolanas pouco informadas que poderiam interpretar o afastamento da UNITA do governo como um possível regresso à guerra, além de que permanecer num executivo seria, segundo Ernesto, uma óptima aprendizagem administrativa. Os ministros da UNITA sentiam-se limitados pelo partido maioritário mas iam ficar. Registei tudo num papel e vou tentar fazer um trabalho que começa..., deixa-me pensar..., com uma citação de Montesquieu sobre o poder. Voltei a inscrever-me na Faculdade de Letras em Filosofia. Sinto-me uma principiante mas vou tentar fazer estes textozinhos básicos de quem nem sequer percebeu ainda como é que funcionam as alternâncias democráticas ou a incapacidade de as concretizar. Vou começar por basear-me nos poderes em Angola porque me surgiu a oportunidade de ir andar de mota d'água para a ilha do Mussulo. "Bora aí malta. Vamos cagar nesta cena que é bué da seca".
Catarina Miranda

3/16/2005

Adrenalina do Medo

As motas são rápidas, excitantes, libertadoras. Não há nada que se compare à sensação de percorrer estradinhas esquecidas, com paisagens de tirar a respiração mas que enchem a alma de cores, sons, cheiros, vivências... onde nos entregamos às curvinhas com mais ou menos adrenalina. Mas não só. O outro tipo de adrenalina, a do medo, também faz parte. Para nós, motards, muito mais vezes do que as que desejaríamos. São sempre demais.

Local: 2ª circular, faixa mais à esquerda do eixo central;
Hora: meia-noite e picos;
Moto: XX 1100 (um motão, para os menos entendidos);
Intervenientes: o "piloto", eu à pendura e a Maria (vamos chamar-lhe assim), no seu Seat Ibiza novíssimo, azul petróleo;
Velocidade: cruzeiro (70/80 kms/h).

A Maria circulava na faixa central e vinha cansada de um dia inteiro de trabalho. Estava louca para chegar a casa, em Alverca. Nós vínhamos do Páteo dos Poetas, em Oeiras, depois de um cafezinho com o pessoal motard, lá do Motoclube. Depois de muita conversa sobre motores, pneus e combinações para passeios gastronómicos (e, claro, alguma inveja sobre as motas alheias), zarpámos para Lisboa. Como qualquer motard, alterámos a rota do costume (pela Marginal, tão mais romântica), para que um companheiro, que mora em Odivelas, não fosse sozinho. Buzinadela, cumprimento com a mão, piscas e ele lá seguiu para Odivelas. Nós continuámos.

Estava muito trânsito na faixa central e a faixa da esquerda estava livre. Pisca para a esquerda e zuca, lá vamos nós. A Maria, entretanto, dentro do seu confortável e seguríssimo Seat Ibiza última geração, fazia os últimos apontamentos sobre aquela reunião aborrecidíssima que se alongou muito além das after-hours numa folha que tinha pousada no banco do condutor. Olhou para a frente e viu o mesmo que nós... bastante trânsito. Faz pisca para a esquerda e mete-se. Olha depois de esguelha, só para "confirmar" que não vinha lá ninguém. Mas vinha. Vínhamos nós. Travões a fundo, a roda de trás a deslizar debaixo do meu rabo, tentando heroicamente agarrar-se ao alcatrão novamente e os nossos corpos impelidos para a frente, com a força da inércia/centrífuga. Maria assustou-se e voltou ao seu lugar. Nós passámos para a frente dela. Gritei: "puta de merda! É por estas putas que todos os dias morrem motards nas estradas portuguesas. Porque vão a pensar na puta da vidinha medíocre que levam, com reuniões e hierarquias e supermercados e relatórios e filhos e férias em Cuba!" O meu companheiro concordou seraficamente, com aquele ar "sim, mas não há nada a fazer contra isso..." Eu discordei. Posso não poder fazer muito, mas a Maria ia ter uma lição naquela noite. Se calhar, a mais importante da vida dela.

Estamos então à frente dela. Velocidade: 20 kms/h. Ela tenta ultrapassar pela esquerda. Nós não deixamos. Ela tenta ultrapassar pela direita. Nós não deixamos. A esta altura, Maria estava já em pânico e as pernas tremiam-lhe. Decidiu entrar numa estação de serviço. Nós não. Nós continuámos e fomos esperá-la à saída da bomba. Calmamente. Depois de 2 minutos de espera, ela apareceu, a rodar muito devagarinho. Também ela provou o sabor da adrenalina do medo. Corajosamente, abriu o vidro do carro (acredito que estivesse toda trancada). Aproximámo-nos. Disse-lhe: "Só para que saiba, é por atitudes como essa, género «é uma mota, ela passa" ou "é uma mota, não chega aqui a tempo», que todos os dias morrem motards nas estradas. Nós temos tanto direito como a senhora a circular na estrada. A única diferença é que somos muito mais conscienciosos. Temos SEMPRE de pensar por nós e pelos outros. Além de que a senhora vai confortavelmente sentada no seu carrinho classe média, que a protege, e nós não. Para si, se nos batesse, era apenas mais uma maçada... uma amolgadela no capot... mas para aqueles que gostam de nós... olhe, era uma grande amolgadela nos corações daqueles que nos amam." Maria largou então a BIC e, quase a chorar, pediu desculpa, que não tinha sido essa a sua intenção, que até tinha um irmão que também teve um acidente de mota e partiu uma perna, por uma situação do género e que de facto estava distraída e que não voltava a acontecer, porque nós tínhamos toda a razão. Despedi-me então, desejando-lhe o resto de uma noite feliz e uma boa viagem. Ela deixou-nos passar.

Pode não ser muito, mas tenho a certeza que a Maria vai falar de mim ao marido, aos filhos, aos pais e até aos colegas de trabalho, começando sempre com um: "vocês querem lá saber o que me aconteceu!...". Mas vai falar. E quem tenha dois dedinhos de testa vai perceber. Para quem não perceber deixo aqui uma equação simples:

Automóvel= carroçaria+4 rodas

Mota= 2 pessoas+2 rodas

Ana Ataíde


Tom Vitoín

3/15/2005

Caldas da Rainha, desenvolvei o negócio!

A venerável loiça das caldas precisa de novos temas. As novas geracões não sabem quem é o Zé Povinho. E mesmo Mário Soares, apesar dos esforços, já não interessa a ninguém. Sugiro, por isso, aos caldenses fabricantes de loiças, a produção em massa de Botas Botildes com grandes pichas, e a dizer... 1,2,3 já te enrabei outra vez.
Esta é apenas uma ideia. Aceitam-se sugestões.

Luís Serpa

Primeira vez

Não está mal participares num blog assim – ainda não escreveste nada e já o teu nome brilha ali em cima no cabeçalho. A partir de agora as grandes ideias que te surjam na modorra do trânsito matinal deixarão de ir para a gaveta dos projectos inconsequentes, podendo de imediato ser despejadas para avaliação dos 614 leitores que até agora aqui entraram, e sabe-se lá quantos mais no futuro.
O dia nem sempre amanhece radioso, porém, e tu, um blogger que atravessa os textos da imprensa oficial em diagonais incompletas, estás no mínimo obrigado a passar os olhos pelos textos dos colegas cibernéticos, para não os repetir. Se acrescentarmos que as livrarias e as bibliotecas são dos lugares mais angustiantes que conheces – lembra-te das vezes te pareceu aí ouvir o riso sarcástico dos livros que sabem nunca virem a ser lidos por ti – qual o teu crédito para alimentar o excesso de escrita de que falou na inauguração o JPG?
Mas não está mal participares assim num blog – em vez de ir ao psicólogo com depressões filosóficas deitas-te aqui no etéreo divã e poupas umas dezenas de euros… até o blog master (cuja autoridade não se baseia por enquanto em demonstradas capacidades de liderança mas no facto de ter em seu poder a senha de administrador) acabar expulsando-te por inépcia.

Paulo B.

3/14/2005

Efeito JAGUAR


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Há um anúncio da Levi´s em que uma rapariga e um rapaz correm a uma velocidade alucinante e vão dando saltos felinos de arranha-céu em arranha-céu. Têm uma expressão feroz, têm muita força, as calças ficam-lhes muita bem. São altivos, brutais, bravos, valentes, ameaçadores, arrogantes. No fim são quase dois aviões a jacto.Enterrada no sofá, cada vez que o vejo apetece-me ser TURBO, levar um empurrão pelas costas (falta grave no futebol) e avançar. Receber uma descarga de potência que me atire para a frente e passar a ser uma espécie de leopardo que toma esteróides anabolizantes. Se fosse americana levantava-me do sofá e comprava um Buick. Se fosse inglesa preferia sentir o ronco suave do motor de arranque do... Jaguar e ser mentora de um ataque da cavalaria britânica. Se fosse alemã tinha um ganda Porsche e um ganda orgulho. Sendo portuguesa quero tê-los a todos num só carro que deve ainda comportar-se como um jipe em estradas esburacadas e a subir passeios de um metro de altura para estacionar à porta da empresa onde trabalho e que me lembra, no pay day, que o único efeito que o anúncio da televisão pode ter em mim é o de poder comprar umas gandas calças de ganga.
Catarina Miranda
Poço da Morte
Nasceu mais uma "estrela" no firmamento pimba português. Nada a estranhar, não fosse o facto de se tratar nada mais, nada menos da irmã de Cristiano Ronaldo, que não se fez rogado a fazer valer todos os favores que lhe deviam conseguindo levar a talentosa da família ao Herman Sic e ao Você na TV (com a ajuda preciosa de um pretenso romance entre Cristiano e Isabel Figueira).
Enquanto cantava, lembrei-me da Ágata , da sua sobrinha Romana e do irmão desta, todos eles a pulular alegrando todas as terrinhas por onde passam. Mais uma associação de ideias e vem-me à ideia as famílias dos circos.
Fico com a sensação de que as famílias inteiras que se dedicam durante séculos à periclitante arte de se elevarem nos trapézios ou mesmo de arriscarem suas vidas no Poço da Morte, se assemelham imenso à Ágata e à Romana. Ou então, não.
Ana Ataíde

3/11/2005

A Caminho dos Alpes

Paragem em Siena para jantar. Pela manhã, já estarei nos Alpes.
Luís Serpa
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